Valéria Di Pietro

Agosto 5, 2007

O DIREITO DE SONHAR – EDUARDO GALEANO

Arquivado em: INDISPENSÁVEIS — Valeria Di Pietro @ 5:58 pm

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O DIREITO DE SONHAR
Eduardo Galeano

Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado. Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão. Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros. O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões. O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas. Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar. Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar. Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas. Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas. Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos. Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas. O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre. Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão. Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos. A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela. A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la. Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro. Uma mulher – negra – vai ser presidente do Brasil, e outra – negra – vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru. Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória. A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

Agosto 4, 2007

NAVEGAR É PRECISO – FERNANDO PESSOA

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:38 am

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Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso“. Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a
forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o
propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Balada das dez bailarinas do cassino

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:25 am

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Cecília Meireles
Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.
Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

Cogito – Torquato Neto

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:14 am

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eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

NAVEGAÇÃO – cecília meireles

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:00 am

blog10.jpgÉramos feitos de um leite casto,
repleto de suspiros.

Feitos de canções docemente entoadas
sob vagas iluminações.

De brinquedos poéticos,sob estrelas,
em varandas e laranjais.

Tínhamos olhos cheios de flores e pássaros,
a boca de preces, a testa de beijos.

Pisávamos no mundo com leveza de anjo,
e iríamos, certamente, para além do horizonte.

Escolhíamos as palavras de dizer,com grande enlevo,
porque falar já era ser.

Amávamos na viagem a estrela que ia na proa
tanto como a espuma que nos fugia.

Com tantos ontens e amanhãs, não combatíamos pelo hoje.
Ele ia sendo por si, harmonioso, entre uns e outros.

E éramos tudo, divinamente, com gracioso esquecimento.
E nem tomávamos, porque éramos de dar.

Assim morremos, dos contrastes que matam os homens.
A seta cravada no peito e o diamante oferecido na mão.

Cátedras – Cecília Meireles

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 6:54 am

 

blog3.jpgCom saudade de mim incline-me na noite.
Ó mundo da solidão, escorrendo lágrimas!
Saudade daquela tristeza que amei
e da paciência com que a deixei passar
como se espera caridosamente que passem
pelas ruas os aleijados ou os enterros.
Nunca mais seremos de tal modo tristes,
Porque afinal tristeza e alegria se tornarão
O mesmo rosto de nossa alma.

Nunca mais serei aquela que era e se comtemplava,
ainda dividida
e aprendia sozinha a assim deixar de ser.

Do alto das cátedras melancólicas
um dia, afinal, sorrimos
Para os distantes exercícios
Da alma principiante.

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