Valéria Di Pietro

Outubro 3, 2008

Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 29/setembro/2008.

Arquivado em: LEITURAS — Valeria Di Pietro @ 7:29 am
26/09/2008 – 22:41 – Atualizado em 29/09/2008 – 13:21
“…depois, querida, ganharemos o mundo”
A profética frase de Machado de Assis faz parte de um conjunto inédito de cartas que ÉPOCA revela com exclusividade. Hoje, o maior escritor brasileiro começa a ser reconhecido em todo o mundo
Luis antônio Giron


Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

MATURIDADE?
A fotografia de Machado de Assis por Marc Ferrez tem a data presumida de 1890. Mas o modelo parece ter menos de 50 anos, comparado à imagem das fotos das próximas páginas

Nos cem anos de sua morte, comemorados nesta segunda-feira, 29 de setembro, Machado de Assis ainda é capaz de provocar surpresas. Sua extensa obra – nove romances, 200 contos, uma dezena de peças de teatro, cinco coletâneas de poemas e milhares de crônicas – está praticamente canonizada e o torna, indiscutivelmente, o maior escritor do Brasil. Mas quem é esse gênio? É o austero fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL)? O monstro cerebral pessimista e sarcástico como o descreviam os modernistas? Ou o herói do povo, como defendiam os primeiros socialistas? Embora os estudos machadianos tenham gerado dezenas de milhares de títulos – Machado é o ramo do conhecimento literário brasileiro mais estudado –, sua vida permanece envolta em mistérios, em especial os anos de juventude. Como um sujeito pobre e mestiço, numa sociedade ainda escravagista, conseguiu se tornar o mestre da cultura brasileira? ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, a um conjunto de cartas ainda inéditas de Machado, que ajudam a responder a essas perguntas e a desvendar o enigma machadiano. “Pela primeira vez, podemos compreender o fluxo da correspondência de Machado, suas amizades, amores, relação com a política de seu tempo e preocupações filosóficas”, diz o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, da ABL. Rouanet coordena o projeto mais arrojado do centenário de Machado: organizar em ordem cronológica toda a correspondência do escritor, tanto a escrita por ele como a recebida por ele ao longo de 50 anos de vida intelectual. O primeiro volume do trabalho, Correspondência de Machado de Assis, Tomo I (1860-1869) , sairá em outubro. São 90 cartas. O segundo, previsto para 2009, contém oito centenas de cartas e cobre os 40 anos restantes.

O Machado de Assis que emerge dessas cartas é um personagem novo, distante dos estereótipos que nos habituamos a estudar na escola. Trata-se de um dândi, um jornalista e poeta empolgado com a frenética vida social e boêmia do Rio de Janeiro imperial. Ele sai com atrizes de teatro, conta suas aventuras aos amigos, divide confidências e dá conselhos. Num sinal de que estava bem à frente de seu tempo, sugere à noiva a leitura de um compêndio feminista. A um amigo distante, filosofa sobre a podridão do comportamento humano e a vida na cidade. De modo maroto, esquiva-se das ordens dos caciques políticos que chefiam o jornal em que trabalha, o Diário do Rio de Janeiro. Ele é um Machado que, mais que tudo, desce do monumento da academia e vai às ruas, rejuvenescido.

SAIBA MAIS
Acervo ABL
A ÍNTEGRA DAS CARTAS

As duas cartas manuscritas de Machado a Carolina que restaram da correspondência íntima do casal foram reencontradas há um mês no Museu da República, do Rio de Janeiro. Clique sobre a imagem acima para ver as cartas a Carolina e a versão digitalizada do texto. Confira também a correspondência de Machado a alguns amigos, como Euclides da Cunha, e deles para o escritor.

A investigação que descobriu esse novo personagem mundano começou há dois anos, sem outra intenção que ordenar um material desconhecido. Rouanet convidou as pesquisadoras Irene Moutinho e Silvia Eleuterio para sair à cata de cartas em arquivos e bibliotecas. Logo, as surpresas e os textos inéditos começaram a vir à tona – e esse novo Machado, mais jovem e impetuoso, começou a ganhar corpo.

Uma das principais descobertas feitas por Irene está no texto de uma das duas cartas íntimas que restaram de Machado a Carolina, então sua noiva. Elas foram escritas no mesmo dia, 2 de março de 1869, quando Carolina estava em Petrópolis para tomar conta do irmão, o jornalista e poeta – e amigo de Machado – Faustino Xavier de Novaes (1820-1869). Faustino sofria de distúrbios mentais e morreria em agosto. “Machadinho”, como Machado assinava sua correspondência a Carolina, estava aflito por reencontrar a amada. Derramou-se em declarações e elogios a ela, numa letra apressada e nada legível. Perto da conclusão, uma palavra soava estranha a quem se acostumara com uma versão que fora divulgada em 1939, no Catálogo da Exposição do Centenário de Machado de Assis, repetida até hoje. O trecho da carta que embatucou a pesquisadora dizia: “depois… depois, querida, queimaremos o mundo, porque só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis”.

O convite de Machadinho para a queimada planetária soava esquisito. “Havia algo de errado”, diz Irene. Acostumada com manuscritos, ela foi à caça dos originais, dados como perdidos. Encontrou o documento no Museu da República, no Rio de Janeiro. As duas cartas foram doadas à instituição pela sobrinha de Machado, Laura Braga da Costa. Irene fez a cópia das cartas e comparou-as com os textos impressos. “Notei discrepâncias e deduzi, pela análise dos garranchos, que tudo apontava para ‘ganharemos’, e não ‘queimaremos’”, afirma Irene. A carta, corrigida, ganhou um novo sentido. Machadinho declara premonitoriamente a sua “Carola”: “…depois, querida, ganharemos o mundo”. “A sensação foi de alívio”, diz Rouanet. “Nosso Machado não era incendiário aos 30 anos, nem fez um convite terrorista a Carolina!”

Acervo ABL

AMOR DEFINITIVO
A portuguesa Carolina (em foto de c. 1890) casou-se com Machado de Assis (acima, aos 25 anos) em 1869. Ela foi trazida do Porto depois de uma suposta desilusão amorosa. Viveram juntos por 35 anos

O desejo de Machado está se cumprindo. Hoje, ele começa a conquistar o mundo. Os simpósios internacionais sobre sua obra, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, atraem a atenção de acadêmicos respeitáveis. Críticos de alta reputação, como os americanos Harold Bloom e Susan Sontag e o inglês John Gledson, elevaram-no ao patamar dos gênios. Em seu livro Gênio, de 2003, Bloom define Machado como “um milagre”, por ter conseguido fugir de sua situação social e histórica para criar uma ficção universal. Seus livros foram traduzidos para 14 idiomas, a maior parte na década passada. Há, nos EUA, um entusiasmo por novas traduções.

A glória mundial de Machado será enriquecida pela redescoberta de suas cartas. Elas contêm mistérios que mostram a complexidade da relação amorosa entre Machado e Carolina. Uma das charadas da primeira carta está no terceiro parágrafo. Ele diz: “Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida”. Soa cifrado. E as únicas explicações que poderiam elucidar o enigma estariam nas demais cartas íntimas, queimadas após a morte de Machado.

Outubro 26, 2007

Perde o gato

Arquivado em: LEITURAS — Valeria Di Pietro @ 6:22 am

Carlos Drummond de Andrade
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu ? e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenônemo se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociolóligo ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio ? cor incomum em gatos comuns ? e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio ? pensei ? dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não seqüestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licança, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.

Ferreira Gullar e a poesia necessária – Izacyl Guimarães Ferreira

Arquivado em: LEITURAS — Valeria Di Pietro @ 5:53 am

Homenagem aos 75 anos do poeta ( setembro de 2005 )

Há poetas cuja obra constitui um mundo pessoal, fechado em si mesmo, seja pelos assuntos – memórias, sentimentos, flagrantes – seja pela dicção que os molda. Não importa se são grandes poetas ou não, se comovem o leitor com maior ou menor intensidade. Podem ser de agora ou de antes, contemporâneos ou históricos. São sua obra, digam o que digam, valham o que valham, para o leitor ou a crítica.

 

Tal fechamento, entretanto, não impede a excelência desse tipo de poesia, nem a durabilidade, na estima dos leitores, daqueles poetas que assim se expressam. O que pode sustentar sua permanência é uma imprecisa soma de virtudes a que atribuímos “beleza”, “sabedoria” e/ou “força”. A qual atribuímos “qualidade superior”.

 

E há poetas cuja obra se torna companhia do leitor, por expressar alguma coisa sua ainda não expressa, falar sua linguagem calada, dar-lhe voz. São poetas cuja poesia é esperada sem que se saiba quando chega, necessidade em geral ignorada, mas que se faz indispensável quando satisfeita.

 

Tal poesia e seus autores poderão ser mais ou menos “importantes” que os do primeiro tipo, no julgamento de hoje, de ontem, ou de amanhã. Não importa esta consideração. Importa, como em qualquer gênero de arte, é a sua capacidade de expressão e de comunicação. Importa é a capacidade de alcançar um estado de identificação universal, porque habita o centro dos valores e das expectativas do ser humano.

 

Dou exemplos de poetas de quem já se disse algo a respeito – que “completam a vida”, que “nos fazem um bem”, “era isso mesmo!”. Em geral, são poetas que, sintonizados com a realidade ou a iminência dela, antecipam o sentir geral e o fazem de forma acessível. Dois exemplos, brasileiros, entre os maiores, seriam Bandeira e Drummond.

 

A importância e a qualidade extraordinária da poesia de Cecília, Murilo, ou Jorge ou João Cabral, entre outros, em nada os faz menores, pelo fato de serem eles, a meu ver, poetas construtores de mundos pessoais singulares. Nem faz do ótimo Vinícius um nome tão alto o ter aquela virtude de dizer o que todos ou quase todos sentem e esperam ler ou ouvir. Nenhum juízo de valor nesta enumeração.

 

Creio que Ferreira Gullar se enquadra no modelo que um Bandeira e um Drummond exemplificam, pela capacidade que sua poesia tem de vir a uma espécie de encontro marcado com o leitor.

 

Não por acaso. Em mais de um depoimento Gullar declara que se fez poeta para dar voz aos que não a têm – aos anônimos de sua terra, ou de qualquer terra, aos humilhados e ofendidos. E seu compromisso auto assumido, sua busca dessa voz plural é visível no que diz e em como diz, no profissionalismo de sua busca de uma linguagem clara e direta após os muitos experimentalismos que praticou e dos quais soube tirar lição, e dar explicação, nos ensaios sobre arte e poesia, em entrevistas e depoimentos.

 

Tomem-se livros como “Barulhos” e “Muitas vozes”, entre os mais recentes, ao lado das buscas dos cordéis dos anos 60, das denúncias de “Dentro da noite veloz” ou de “Na vertigem do dia”. Ou em poemas isolados tais como o esplêndido “Traduzir-se” ou o que narra a visão do avião “Electra” no ar, visto da janela em Copacabana. Sacudimos a cabeça num sim, sorrimos do “achado”, recebemos o recado. Nem toquemos no singular “Poema Sujo”, que embora pareça memória exclusivamente pessoal, transcende o particular e se faz poema de uma geração e de um momento histórico, em nada menos universal que as denúncias das guerras, da ditadura e do imperialismo.

 

Tal capacidade de dizer o universal através de um quintal de São Luís do Maranhão, do cheiro da tangerina ou da morte de Guevara não se conquista à toa , ao sabor da inspiração, do sopro ou da indignação. Gullar, mais de uma vez, em verso e em prosa, disse que só cede à imposição do verso quando já não pode conter-se, mas que tal ceder não vem de incontrolável sopro e sim da necessidade de cumprir sua missão de contar, ou, digo eu, de Gullar ser poeta profissional, o que não implica em escrever 24 horas por dia, mas de realizar o seu trabalho com atenta consciência funcional, para, confessadamente, dar voz ao real.

 

O real. Disso se faz sua poesia. Fazer poesia realista não é apenas expor a nu o que se vê e pode ser exposto com jornalismo. Fazer poesia assim, realista e clara, é opor-se ao subjetivismo fechado, ao escapismo, ao “trobar clus” de tantas vertentes, abstratas ou concretas, virtuais ou nebulosas. Não implica em descrição prosaica embora possa roçar a prosa (como, pergunto, evitar a contaminação, hoje?), não implica em descartar o amor individualizado numa mulher ou numa saudade. Implica em expressar a vida vista e vivida, ao alcance do leitor, com a sabedoria do fazer.

 

E esta é outra virtude de Gullar. Capaz de sonetos perfeitos, de recursos sofisticados cultos e cordéis, de rimas de todo matiz, criou sua linguagem no ritmo falante, não estrófico, cujas “cesuras” – usemos o termo para nomear as quebras de linha (Cassiano reivindicaria serem o que não são, “linosignos”) – são respiração, marcação de leitura de verso livre. Recordemos, de passagem, que todo bom poema pode ser ouvido, em voz alta, além de ser lido – além do “barulho / quando rumoreja/ ao sopro da leitura”.

 

Ao falar sobre sua obra, mais de uma vez Gullar se refere à forma como resultado e não como condicionante, e ao mesmo tempo relata o trabalho do fazer e o efeito querido, consciente mas nem sempre. O histórico de sua busca, desde o parnasianismo admirado pelo adolescente maranhense, do espanto com a descoberta dos grandes de 22 e 30, Murilo e Drummond em particular, revela uma preocupação de feitura que só a leitura apressada de sua obra não reconheceria, ou a desatenção ao próprio pedido dele no abrir de um de seus livros: “por favor, leia devagar”…

 

Chegar à descontração da maturidade após tanto rigor e tanto experimentalismo (em entrevista cita a célebre frase de Gauguin sobre pintar com a mão direita, depois com a esquerda e depois com os pés, como um modo de contínuo aprendizado necessário) demonstra seu profissionalismo, que recorda também o Picasso da “boutade” de levar a vida inteira para pintar como uma criança.

 

Não cito pintores casualmente. A formação de Gullar incluiu a pintura, e os amigos Mário Pedrosa e Oscar Niemeyer entre tantíssimos outros terão muito a ver com a decantada visualidade, a vigorosa concretude e a marcante exatidão que sua poesia ostenta, desde quase sempre. Crítico de arte cujos textos são queridos especialmente pelos criticados – entre os quais pintores tão diversos como Iberê Camargo e Siron Franco – o conhecimento e domínio da pintura que Gullar detém permeiam sua poesia por essas características de plasticidade acima aludidas. O ex ou quase pintor, o crítico, é também quem vê o mundo que o poeta escreve.

 

Não é mera casualidade Gullar escrever com tais marcantes características, de visualidade (ou visibilidade), exatidão e concretude. Poeta de seu tempo (como creio que o transcenderá, cumpre o que um escritor do porte de Italo Calvino prenunciava nos anos 80, “para o próximo milênio”, e apontava como presentes em grandes autores do passado, como especificidades da literatura, que só a literatura pode ter e dar.

 

Em conferências que não chegou a proferir, em Harvard, pois faleceu antes de completar as seis propostas ou pronunciar qualquer delas, Calvino as enumerou: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência. (V. edição da Companhia das Letras, tradução de Ivo Barroso, 2000: “Seis propostas para o próximo milênio”.)

 

Lembremos, na impossibilidade e inoportunidade de comentarmos aqui os conceitos de Calvino, apenas algumas de suas considerações e dos nomes que ilustram seus conceitos. Sobre “exatidão” cita Edgar Allan Poe , Paul Valèry. Ponge, Flaubert e Lucrécio, entre outros, e conceitua exatidão como capacidade de intuir e falar a linguagem das coisas com a carga humana posta nelas, evoca o demônio da lucidez que Valèry viu em Poe, traz o exemplo da precisão do cristal e do calor da chama.

 

Sobre “visibilidade” menciona, entre os elementos formadores da parte visual da imaginação literária, a observação direta do mundo real, o mundo figurativo transmitido pela cultura, a interiorização da experiência sensível, a memória “icástica”. E lembra Dante e Balzac.

 

Ao longo dos textos das conferências Calvino não descarta, mas, pelo contrário, exalta a imaginação, a fabulação, sobretudo ao tratar dos conceitos de rapidez, (que não se confunde com pressa ou ligeireza) e multiplicidade, aqui citando os exemplos de Goethe, Proust e Borges, a noção de obra aberta e a ambição enciclopédica de Mann na “Montanha mágica”.

 

Lembrar tais características ao ler Gullar é natural porque elas estão presentes em sua obra, umas mais que outras, dado seu compromisso essencial de dizer o real, o atual, dar voz a seus semelhantes, registrar a vida.

 

Seu compromisso com a vida e sua dependência da poesia têm múltipla presença explícita ao longo da obra, quando em lugar de dizer que faz isso ou aquilo, que é tal coisa ou outra, diz que a poesia é que faz ou é. Mais que recurso poético, tal substituição de sujeito reflete a transferência de voz a que se propôs – pluralizar sua autoria, ser porta-voz.

 

A popularidade relativa de Gullar (digo “relativa” por ser menor que a que lhe é devida) não se deve só à mídia e às peripécias de sua vida ou mesmo à exposição ganha como teatrólogo ou autor de teledramas, ou ainda, cronista e apresentador de TV . Ela se deve, acho, ao que venho alinhavando aqui. Deve-se ao seu realismo, ao seu compromisso com a compulsão de narrar a vida.

 

Não devemos confundir tal compromisso com qualquer projeto programático, seja político no sentido amplo, ou meramente partidário. A poesia de Gullar é política e social porque embora o “sujeito lírico” seja frequentemente a pessoa física José Ribamar Ferreira, seu nome de batismo, o que vai expresso é um “eu” que relata experiência humana transferível a muitos quando não a todos os leitores. Narrar a dor de um marginal ou frutas que apodrecem, a estatística da mortalidade infantil no Piauí, a fundação do Partido Comunista por homens comuns, pensar a mulher além dos quilômetros que separam duas cidades, toda essa temática é realista, ou é “engajada” ou é só atual e por tais vias chegam àquele encontro marcado a que aludi acima. Porque Gullar é poeta do hoje, essencialmente.

 

A memória presente com frequência, a especulação com o universo, a morte, de amigos ou referência inescapável, são temas que vêm sempre a partir de uma perspectiva do aqui e do agora.

 

Creio que um autor vale e deve ser julgado pelos seus textos, independentemente do que se saiba de sua biografia, só sendo indispensável recorrer a ela se tal recurso joga luz necessária à compreensão do texto. No caso de Gullar, o conhecimento da biografia ajuda (somos contemporâneos, somos conterrâneos e os fatos e dados circulam) mas não é imprescindível, graças à clareza do que diz e referir-se ao aqui e ao agora.

 

Sua aderência ao aqui e ao agora corre o risco da durabilidade. Será contemporâneo como um clássico, no futuro? O tempo dirá, como tem dito de tantos poetas que “ ficaram” e de outros, que renasceram, como dos mais raros, que sempre estiveram, e são também numerosos.

 

Mas se estes últimos, como Homero, Dante, Shakespeare, Camões, e nossos Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Castro Alves, marcados por seu tempo, suas crenças e linguagens, permanecem, pode-se esperar que os grandes de hoje, entre eles Gullar, passem ao futuro sua visão de mundo, falem de nós, de nosso tempo, nossas perplexidades e esperanças aos sucessivos herdeiros da Terra.

Blog no WordPress.com.