Valéria Di Pietro

ECOS DO PORÃO

circum-lóquio
(pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo
terceiro-mundista
Haroldo de Campos*

laisser faire laisser passer
1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Não conheço melhor definição da palavra arte que esta: “a arte é o homem acrescentado a natureza”, a natureza, a realidade, a verdade, mas com um significado, com uma concepção, com um caráter, que o artista ressalta, e sos quais dá expressão, “resgata” distingue, liberta, ilumina.

BAUDELAIRE

Ao Leitor ( TOM PROFÉTICO)

FICARA MUITO CONTENTE SE DE ALGUMA MANEIRA, VOCE PUDESSER VER EM MIM MAIS QUE UM VAGABUNDO

Sempre tolice e erro, culpa e mesquinhez
trabalham nosso corpo e ocupam nosso ser,

E aos remorsos gentis, nós damos de comer

Como o mendigo nutre a sua sordidez.

Frouxo é o arrependimento e tenaz o pecado,

Por nossas confissões muito é o que a alma reclama,

Voltando com prazer a um caminho de lama,

Crendo lavar as manchas com pranto amaldiçoado.

Junto ao berço do Mal é Satã Trismegisto,

A nossa alma a ninar, tão longamente invade,

Do precioso metal desta nossa vontade

Este alquimista faz um vapor imprevisto.

É o Diabo que nos move através de cordéis!

O objeto repugnante é o que mais nos agrada;

E do inferno a descer sempre um degrau da escada,

Vamos à noite errar por sentinas cruéis.

Tal como um libertino que beija e mastiga

O seio enrugado de velha vadia,

Furtamos ao acaso uma oculta alegria

Que esprememos assim como laranja antiga.

Espesso, a formigar como um milhão de helmintos,

Ceva-se em nossa fronte um povo de avejões,

E quando respiramos, a Morte nos pulmões

Desce, invisível rio e com sons indistintos.

E se o estupro, o veneno, o incêndio e a punhalada,

Não puderam bordar com seus curiosos planos

A trama banal vã dos destinos humanos,

É que nossa alma enfim não é bastante ousada.

No entanto entre lebéus, panteras e chacais,

Macacos e escorpiões, abutres e serpentes,

Os monstros a grunhir,ladrantes ou gementes,

Que são o nosso vício em infames currais,

Um existe mais feio e mais perverso e imundo!

Embora não se expanda em gestos ou em gritos,

De bom grado faria da terra só detritos

E num simples bocejo engoliria o mundo.

É o tédio! – os olhos seus que a chorar sempre estão,

Fumando seu cachimbo, sonha com o cadafalso.

Tu o conheces, por certo, o frágil monstro, ó falso

Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Abel e Caim (CENA PARA OS FANTOCHES NA CARROÇA) DOIS FANTOCHES UM ESFARAPADO OU MEIO QUE NORTE AMERICANO

BONECO 1 ABEL, BONECO 2 CAIN

Raça de Abel, só bebe e come,

Deus te sorri tão complacente.

Raça de Caim, sempre some

No lodo miseravelmente.

Raça de Abel, teu sacrifício

Doce é ao nariz do Serafim!

Raça de Caim, teu suplício

Será que jamais terá fim?

Raça de Abel, tuas sementes

E teu gado produzirão;

Raça de Caim, sempre sentes

Uivar-te a fome como um cão.

Raça de Abel, não tremas nunca

À lareira patriarcal;

Raça de Caim, na espelunca,

Treme de frio, atroz chacal!

Raça de Abel, pulula! Ama!

Teu oiro é sempre gerador.

Raça de Caim, alma em flama,

Cuidado com o teu amor.

Raça de Abel multiplicada

Como a legião dos percevejos!

Raça de Caim, pela estrada

Arrasta a família aos arquejos.

II

Raça de Abel apodrecida

Há de adubar o solo ardente!

Raça de Caim, tua lida

Nunca te será suficiente;

Raça de Abel, eis teu labéu:

Do ferro o chuço é vencedor!

Raça de Caim, sobe ao céu

E arremessa à terra o Senhor!

TODOS OS FANTASMAS

A MORTE DOS POBRES

BAUDELAIRE

POEMA DITO NA PORTA DE SAÍDA DO PORÃO FECHANDO AS GRADES

Vivemos pela morte e só ela é que afaga;

É a única esperança, e o mais alto prazer,

Que como um elixir nos transporta e embriaga,

E nos faz caminhar até o anoitecer.

Ela é a glória de Deus e a bolsa do mendigo,

É o místico celeiro e mais o lar antigo,

Pórtico que se abriu para os céus mais ignotos.

FIICARA MUITO CONTENTE SE DE ALGUMA MANEIRA, VOCE PUDESSER VER EM MIM MAIS QUE UM VAGABUNDO

MONOLOGO DE UMA SOMBRA AUGUSTO DOS ANJOS

SALA DO MEIO

MARCA DE UM CORPO FEITO A GIZ NO CHÃO,

E o que ele foi: clavículas, abdômen,

O coração, a boca, em síntese, o Homem,

— Engrenagem de vísceras vulgares —

Os dedos carregados de peçonha,

Tudo coube na lógica medonha

Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos

Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos

Dentro daquela massa que o húmus come,

Numa glutoneria hedionda, brincam,

Como as cadelas que as dentuças trincam

No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!

ECCCCO

É O DESPERTAR DE UM POVO SUBTERRANEO

ANFITRIÃ – MESCLADO AO FINAL DO BAUDELAIRE

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

A condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento

Pelas grandes razões do sentimento,

Sem os métodos da abstrusa ciência fria

E os trovões gritadores da dialética,

Que a mais alta expressão da dor estética

Consiste essencialmente na alegria. (AUGUSTO DOS ANJOS mONOLOGO)

Não conheço melhor definição da palavra arte que esta: “a arte é o homem acrescentado a natureza”, a natureza, a realidade, a verdade, mas com um significado, com uma concepção, com um caráter, que o artista ressalta, e sos quais dá expressão, “resgata” distingue, liberta, ilumina.

VINCENT VAN GOGH

O NORMAL – LENDO NO ESPAÇO DO CAFÉ

EPÍGRAFE PARAUM LIVRO CONDENADO (BAUDELAIRE)

LEITOR PASSÍFICO E BUCÓLICO, HOMEM DE BEM E CRENTE NO DESTINO, JOGA ESTE LIVRO SATURNINO, LIVRO ORGÍACO E MELANCÓLICO. SE O CURSO NÃO FIZESTE UM DIA COM O SATANÁS, O ESPERTO DECANO, IRIAS LER ME POR ENGANO, COMO ALGUM CASO DE ESTERIA. MAS SE, SEM DEIXAR TE ENCANTAR, DEVER DESCER AOS ABISMOS, LE ME, QUE O POEMA IRÁS AMAR. ALMA CURIOSA, EM PAROXISMOS, TEM PENA, SE BUSCAS PARAISO. SENÃO EU TE ANATEMATIZO.

Alegria de Criança

CRIANÇA PEDINTE CIRCULANDO PELO LOCAL

William Blake

“Não tenho nome:

Só tenho dois dias.”

Como te chamarei?

“Sou feliz,

Alegria é meu nome.”

Doce alegria te ocorra!

Linda alegria!

Linda alegria de só dois dias,

Te chamo doce alegria:

Tu sorris,

Eu canto entretanto

Doce alegria te ocorra!

Provérbios do inferno

CRIANÇA BRINCANDO COM O LIXO SACO DE LIXO LATINHA DE COCA COLA

William Blake «

Uma vez avistei um Demônio numa língua de fogo,

que se elevou até um Anjo assentado numa nuvem .

E o Demônio proferiu estas palavras:

“A adoração de Deus não consiste em honrar os seus dons em outros

homens, segundo a genialidade de cada um , dedicando-se maior amor aos

maiores homens. Os que invejam ou caluniam os grandes homens odeiam a

Deus , pois não existe outro Deus.”

O Anjo, ao ouvir isto, tornou -se quase azul , mas, recompondo-se ,

ficou amarelo e, por fim, branco e rosa, e, então, sorridente , respondeu:

“Idólatra! Deus não é único? E não é visível em cristo? E não são

todos os outros homens loucos, pecadores e nulidades?”

Retrucou o Demônio:

“Tritura um imbecil numa argamassa com trigo, e

mesmo assim a sua imbecilidade não será expelida. Se Cristo é o maior

dos homens, deverias dedicar -lhe o máximo amor. Ouve agora, como ele

sancionou a lei dos dez mandamentos: não desprezou ele o sábado,

desprezando assim o Deus do sábado? Não matou os que foram mortos por

sua causa? Não desviou a lei da mulher apanhada em adultério? Não

roubou o trabalho dos outros para que o sustentassem? Não deu falso

testemunho ao omitir sua defesa perante Pilatos? Não cobiçou quando

orou por seus discípulos e lhes pediu que sacudissem o pó de suas

sandálias diante dos que se negavam a recebê-los? Pois eu te digo:

nenhuma virtude pode existir sem a quebra desses dez mandamentos.

Cristo era todo virtude e agia por impulso, não por regras.”

Depois que ele assim havia falado, eis que o Anjo, estendendo os braços

e enlaçando a língua de fogo, foi consumido e ascendeu como Elias.

PREGADOR ( REDICUTIR )

Alguém que. tenha assistido,. mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha presta­do atenção às coisas que seus próprios olhos vêem e que seus ouvi­dos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em :

suas obras-primas, e encontrará Deus nelas.

Fulano que andou agitado como. se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino; um outro que parecia nãovaler nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista,

Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um. pou­co sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador . L às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue.

ECCCO

ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.

A MULHER E O GATO

Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que , existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninha­da”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado.” No entanto o prisioneiro vive, e na’o morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu ínti­mo, ele está bem, está ~ais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas”, dizem às crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso”, “estou preso e não me falta nada, imbecis.” “Tenho tudo o que preciso.” ­”Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como outros.”

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo.. .

E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer

algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito

horrível. Alem disso, as vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha.

Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os responsáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado- e por que durante tantos anos estive deslocado- é simplesmente porque tenho idéias diferentes desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir.

CRIANÇA

“Você talvez jamais pensou no que é a pátria”, retomou ele pousando uma mão em meu ombro, “é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas arvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria”. “As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra e esta palavra será a pátria”.

MATUREZA (TORNEIRA E PROJEÇÃO

FRENTE A NATUREZA, NÃO ME SINTO MAIS IMPOTENTE COMO OUTRORA. MAS A NATUREZA É CERTAMENTE “INTANGÍVEL”, É PRECISO CONTUDO ATACÁ-LA E COM MÃO FIRME. E APOS TER LUTADO E COMBATIDO APÓS ALGUM TEMPO COM A NATUREZA ESTA ACABA POR CEDER E TORNAR-SE DÓCIL.

VAN GOGH

” Gostaria muito de lhe escrever sobre uma porção de coisas, mas sei de sua inutilidade …

” Os outros pintores, seja qual for o seu pensamento sobre isto, se mantém à distância das discussões sobre o comércio atual. E então, na verdade, só temos os nossos quadros para falar por nós. No entanto querido irmão, há isto que sempre lhe disse e torno a dizer uma vez mais com toda a gravidade que podem proporcionar os esforços de um pensamento continuamente determinado para procurar fazer o que se quer da melhor maneira possível – digo-lhe mais uma vez que sempre acharei que você é mais que um simples marchand de Corot que através de mim você participa da produção de algumas telas, as quais, mesmo na derrocada, conservam uma certa calma … Num momento dm crise relativa, num momento em que as coisas se encontram tão tensas entre marchands de artista mortos e vivos, é isso, em meu trabalho arrisco a minha vida e minha razão está perdida - bom - mas vice não faz parte dos marchands de homens, que eu saiba, e pode tomar partido, creio, agindo realmente com humanidade, mas que você quer !”

Sua última carta ao irmão Théo-.

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