Valéria Di Pietro

Dezembro 16, 2007

FENIX

Arquivado em: Uncategorized — Valeria Di Pietro @ 5:48 am

sê Fênix.
Usufrui do direito quem tens ao sofrimento real, ele é teu e único.
Necessário.
Mas lembra-te, a vida segue inexoravelmente seu curso. Atropela os incautos, deslumbra os afoitos, premia os justos e corajosos.

Após amarguras sentidas transforma-te, sê a grega e mitológoca ave, que além de seu eterno retorno das cinzas é capaz de suportar pesadas cargas. Ressurge exuberante e mais sábia, mais serena.

Desvenda os mistérios que regem nosso universo, eterno, possível, prazeroso.
Sê feliz querida amiga, sê feliz.

William H. Stutz/ abril 2006

Fênix


Dezembro 6, 2007

Arquivado em: MUITO BOM — Valeria Di Pietro @ 3:33 pm

Novembro 27, 2007

Arquivado em: MUITO BOM — Valeria Di Pietro @ 4:39 pm

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Outubro 26, 2007

Perde o gato

Arquivado em: LEITURAS — Valeria Di Pietro @ 6:22 am

Carlos Drummond de Andrade
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu ? e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenônemo se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociolóligo ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio ? cor incomum em gatos comuns ? e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio ? pensei ? dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não seqüestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licança, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.

A UM AUSENTE

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 6:14 am

. Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

Ferreira Gullar e a poesia necessária – Izacyl Guimarães Ferreira

Arquivado em: LEITURAS — Valeria Di Pietro @ 5:53 am

Homenagem aos 75 anos do poeta ( setembro de 2005 )

Há poetas cuja obra constitui um mundo pessoal, fechado em si mesmo, seja pelos assuntos – memórias, sentimentos, flagrantes – seja pela dicção que os molda. Não importa se são grandes poetas ou não, se comovem o leitor com maior ou menor intensidade. Podem ser de agora ou de antes, contemporâneos ou históricos. São sua obra, digam o que digam, valham o que valham, para o leitor ou a crítica.

 

Tal fechamento, entretanto, não impede a excelência desse tipo de poesia, nem a durabilidade, na estima dos leitores, daqueles poetas que assim se expressam. O que pode sustentar sua permanência é uma imprecisa soma de virtudes a que atribuímos “beleza”, “sabedoria” e/ou “força”. A qual atribuímos “qualidade superior”.

 

E há poetas cuja obra se torna companhia do leitor, por expressar alguma coisa sua ainda não expressa, falar sua linguagem calada, dar-lhe voz. São poetas cuja poesia é esperada sem que se saiba quando chega, necessidade em geral ignorada, mas que se faz indispensável quando satisfeita.

 

Tal poesia e seus autores poderão ser mais ou menos “importantes” que os do primeiro tipo, no julgamento de hoje, de ontem, ou de amanhã. Não importa esta consideração. Importa, como em qualquer gênero de arte, é a sua capacidade de expressão e de comunicação. Importa é a capacidade de alcançar um estado de identificação universal, porque habita o centro dos valores e das expectativas do ser humano.

 

Dou exemplos de poetas de quem já se disse algo a respeito – que “completam a vida”, que “nos fazem um bem”, “era isso mesmo!”. Em geral, são poetas que, sintonizados com a realidade ou a iminência dela, antecipam o sentir geral e o fazem de forma acessível. Dois exemplos, brasileiros, entre os maiores, seriam Bandeira e Drummond.

 

A importância e a qualidade extraordinária da poesia de Cecília, Murilo, ou Jorge ou João Cabral, entre outros, em nada os faz menores, pelo fato de serem eles, a meu ver, poetas construtores de mundos pessoais singulares. Nem faz do ótimo Vinícius um nome tão alto o ter aquela virtude de dizer o que todos ou quase todos sentem e esperam ler ou ouvir. Nenhum juízo de valor nesta enumeração.

 

Creio que Ferreira Gullar se enquadra no modelo que um Bandeira e um Drummond exemplificam, pela capacidade que sua poesia tem de vir a uma espécie de encontro marcado com o leitor.

 

Não por acaso. Em mais de um depoimento Gullar declara que se fez poeta para dar voz aos que não a têm – aos anônimos de sua terra, ou de qualquer terra, aos humilhados e ofendidos. E seu compromisso auto assumido, sua busca dessa voz plural é visível no que diz e em como diz, no profissionalismo de sua busca de uma linguagem clara e direta após os muitos experimentalismos que praticou e dos quais soube tirar lição, e dar explicação, nos ensaios sobre arte e poesia, em entrevistas e depoimentos.

 

Tomem-se livros como “Barulhos” e “Muitas vozes”, entre os mais recentes, ao lado das buscas dos cordéis dos anos 60, das denúncias de “Dentro da noite veloz” ou de “Na vertigem do dia”. Ou em poemas isolados tais como o esplêndido “Traduzir-se” ou o que narra a visão do avião “Electra” no ar, visto da janela em Copacabana. Sacudimos a cabeça num sim, sorrimos do “achado”, recebemos o recado. Nem toquemos no singular “Poema Sujo”, que embora pareça memória exclusivamente pessoal, transcende o particular e se faz poema de uma geração e de um momento histórico, em nada menos universal que as denúncias das guerras, da ditadura e do imperialismo.

 

Tal capacidade de dizer o universal através de um quintal de São Luís do Maranhão, do cheiro da tangerina ou da morte de Guevara não se conquista à toa , ao sabor da inspiração, do sopro ou da indignação. Gullar, mais de uma vez, em verso e em prosa, disse que só cede à imposição do verso quando já não pode conter-se, mas que tal ceder não vem de incontrolável sopro e sim da necessidade de cumprir sua missão de contar, ou, digo eu, de Gullar ser poeta profissional, o que não implica em escrever 24 horas por dia, mas de realizar o seu trabalho com atenta consciência funcional, para, confessadamente, dar voz ao real.

 

O real. Disso se faz sua poesia. Fazer poesia realista não é apenas expor a nu o que se vê e pode ser exposto com jornalismo. Fazer poesia assim, realista e clara, é opor-se ao subjetivismo fechado, ao escapismo, ao “trobar clus” de tantas vertentes, abstratas ou concretas, virtuais ou nebulosas. Não implica em descrição prosaica embora possa roçar a prosa (como, pergunto, evitar a contaminação, hoje?), não implica em descartar o amor individualizado numa mulher ou numa saudade. Implica em expressar a vida vista e vivida, ao alcance do leitor, com a sabedoria do fazer.

 

E esta é outra virtude de Gullar. Capaz de sonetos perfeitos, de recursos sofisticados cultos e cordéis, de rimas de todo matiz, criou sua linguagem no ritmo falante, não estrófico, cujas “cesuras” – usemos o termo para nomear as quebras de linha (Cassiano reivindicaria serem o que não são, “linosignos”) – são respiração, marcação de leitura de verso livre. Recordemos, de passagem, que todo bom poema pode ser ouvido, em voz alta, além de ser lido – além do “barulho / quando rumoreja/ ao sopro da leitura”.

 

Ao falar sobre sua obra, mais de uma vez Gullar se refere à forma como resultado e não como condicionante, e ao mesmo tempo relata o trabalho do fazer e o efeito querido, consciente mas nem sempre. O histórico de sua busca, desde o parnasianismo admirado pelo adolescente maranhense, do espanto com a descoberta dos grandes de 22 e 30, Murilo e Drummond em particular, revela uma preocupação de feitura que só a leitura apressada de sua obra não reconheceria, ou a desatenção ao próprio pedido dele no abrir de um de seus livros: “por favor, leia devagar”…

 

Chegar à descontração da maturidade após tanto rigor e tanto experimentalismo (em entrevista cita a célebre frase de Gauguin sobre pintar com a mão direita, depois com a esquerda e depois com os pés, como um modo de contínuo aprendizado necessário) demonstra seu profissionalismo, que recorda também o Picasso da “boutade” de levar a vida inteira para pintar como uma criança.

 

Não cito pintores casualmente. A formação de Gullar incluiu a pintura, e os amigos Mário Pedrosa e Oscar Niemeyer entre tantíssimos outros terão muito a ver com a decantada visualidade, a vigorosa concretude e a marcante exatidão que sua poesia ostenta, desde quase sempre. Crítico de arte cujos textos são queridos especialmente pelos criticados – entre os quais pintores tão diversos como Iberê Camargo e Siron Franco – o conhecimento e domínio da pintura que Gullar detém permeiam sua poesia por essas características de plasticidade acima aludidas. O ex ou quase pintor, o crítico, é também quem vê o mundo que o poeta escreve.

 

Não é mera casualidade Gullar escrever com tais marcantes características, de visualidade (ou visibilidade), exatidão e concretude. Poeta de seu tempo (como creio que o transcenderá, cumpre o que um escritor do porte de Italo Calvino prenunciava nos anos 80, “para o próximo milênio”, e apontava como presentes em grandes autores do passado, como especificidades da literatura, que só a literatura pode ter e dar.

 

Em conferências que não chegou a proferir, em Harvard, pois faleceu antes de completar as seis propostas ou pronunciar qualquer delas, Calvino as enumerou: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência. (V. edição da Companhia das Letras, tradução de Ivo Barroso, 2000: “Seis propostas para o próximo milênio”.)

 

Lembremos, na impossibilidade e inoportunidade de comentarmos aqui os conceitos de Calvino, apenas algumas de suas considerações e dos nomes que ilustram seus conceitos. Sobre “exatidão” cita Edgar Allan Poe , Paul Valèry. Ponge, Flaubert e Lucrécio, entre outros, e conceitua exatidão como capacidade de intuir e falar a linguagem das coisas com a carga humana posta nelas, evoca o demônio da lucidez que Valèry viu em Poe, traz o exemplo da precisão do cristal e do calor da chama.

 

Sobre “visibilidade” menciona, entre os elementos formadores da parte visual da imaginação literária, a observação direta do mundo real, o mundo figurativo transmitido pela cultura, a interiorização da experiência sensível, a memória “icástica”. E lembra Dante e Balzac.

 

Ao longo dos textos das conferências Calvino não descarta, mas, pelo contrário, exalta a imaginação, a fabulação, sobretudo ao tratar dos conceitos de rapidez, (que não se confunde com pressa ou ligeireza) e multiplicidade, aqui citando os exemplos de Goethe, Proust e Borges, a noção de obra aberta e a ambição enciclopédica de Mann na “Montanha mágica”.

 

Lembrar tais características ao ler Gullar é natural porque elas estão presentes em sua obra, umas mais que outras, dado seu compromisso essencial de dizer o real, o atual, dar voz a seus semelhantes, registrar a vida.

 

Seu compromisso com a vida e sua dependência da poesia têm múltipla presença explícita ao longo da obra, quando em lugar de dizer que faz isso ou aquilo, que é tal coisa ou outra, diz que a poesia é que faz ou é. Mais que recurso poético, tal substituição de sujeito reflete a transferência de voz a que se propôs – pluralizar sua autoria, ser porta-voz.

 

A popularidade relativa de Gullar (digo “relativa” por ser menor que a que lhe é devida) não se deve só à mídia e às peripécias de sua vida ou mesmo à exposição ganha como teatrólogo ou autor de teledramas, ou ainda, cronista e apresentador de TV . Ela se deve, acho, ao que venho alinhavando aqui. Deve-se ao seu realismo, ao seu compromisso com a compulsão de narrar a vida.

 

Não devemos confundir tal compromisso com qualquer projeto programático, seja político no sentido amplo, ou meramente partidário. A poesia de Gullar é política e social porque embora o “sujeito lírico” seja frequentemente a pessoa física José Ribamar Ferreira, seu nome de batismo, o que vai expresso é um “eu” que relata experiência humana transferível a muitos quando não a todos os leitores. Narrar a dor de um marginal ou frutas que apodrecem, a estatística da mortalidade infantil no Piauí, a fundação do Partido Comunista por homens comuns, pensar a mulher além dos quilômetros que separam duas cidades, toda essa temática é realista, ou é “engajada” ou é só atual e por tais vias chegam àquele encontro marcado a que aludi acima. Porque Gullar é poeta do hoje, essencialmente.

 

A memória presente com frequência, a especulação com o universo, a morte, de amigos ou referência inescapável, são temas que vêm sempre a partir de uma perspectiva do aqui e do agora.

 

Creio que um autor vale e deve ser julgado pelos seus textos, independentemente do que se saiba de sua biografia, só sendo indispensável recorrer a ela se tal recurso joga luz necessária à compreensão do texto. No caso de Gullar, o conhecimento da biografia ajuda (somos contemporâneos, somos conterrâneos e os fatos e dados circulam) mas não é imprescindível, graças à clareza do que diz e referir-se ao aqui e ao agora.

 

Sua aderência ao aqui e ao agora corre o risco da durabilidade. Será contemporâneo como um clássico, no futuro? O tempo dirá, como tem dito de tantos poetas que “ ficaram” e de outros, que renasceram, como dos mais raros, que sempre estiveram, e são também numerosos.

 

Mas se estes últimos, como Homero, Dante, Shakespeare, Camões, e nossos Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Castro Alves, marcados por seu tempo, suas crenças e linguagens, permanecem, pode-se esperar que os grandes de hoje, entre eles Gullar, passem ao futuro sua visão de mundo, falem de nós, de nosso tempo, nossas perplexidades e esperanças aos sucessivos herdeiros da Terra.

Agosto 5, 2007

O DIREITO DE SONHAR – EDUARDO GALEANO

Arquivado em: INDISPENSÁVEIS — Valeria Di Pietro @ 5:58 pm

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O DIREITO DE SONHAR
Eduardo Galeano

Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado. Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão. Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros. O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões. O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas. Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar. Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar. Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas. Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas. Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos. Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas. O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre. Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão. Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos. A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela. A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la. Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro. Uma mulher – negra – vai ser presidente do Brasil, e outra – negra – vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru. Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória. A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

Agosto 4, 2007

NAVEGAR É PRECISO – FERNANDO PESSOA

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:38 am

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Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso“. Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a
forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o
propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Balada das dez bailarinas do cassino

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:25 am

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Cecília Meireles
Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.
Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

Cogito – Torquato Neto

Arquivado em: OS POETAS — Valeria Di Pietro @ 7:14 am

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eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

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