Um Saramago hormonal – Blog da Flip


A morte de Saramago pegou-nos de surpresa. Apesar da idade e dos problemas de saúde, parecia inquebrável, tal sua verve, entusiasmo e firmeza. No blog da Companhia das Letras, Chico Buarque afirma, em parte por todos nós: “Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa.”
A jornalista portuguesa Vanessa Rodrigues, correspondente em São Paulo da rádio portuguesa TSF, escreveu um emocionante texto sobre o escritor, o qual publicamos, com exclusividade. Vanessa, que esteve na Flip em 2006, pelo Público, e em 2008 e 2009 pelo Diário de Notícias, ambos jornais portugueses, conheceu Saramago pessoalmente e leu todos os seus livros – O Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna, o Ano da morte de Ricardo Reis e Caim são seus favoritos. Chama-o de ” mestre literário deste meu Português salgado”. E diz que por causa dele, acredita “que a escrita é a melhor das terapias para tornarmos a vida um pouco mais suportável.”
Ensaio sobre a traição; um Saramago hormonal, em estado de excepção
Por Vanessa Rodrigues
Vi-o duas vezes, mas cheguei a viver a vida dele, mais do que gostaria, sempre num estado de excepção. Trai-o, tantas vezes! E ele a mim. Nunca soubemos bem da vida um do outro (e ele nem sempre me fazia bem), porque ele era isso: um estado de excepção, a subverter regras, imposições, valores. E isso incomodava-me. Mexia comigo. E nós não gostamos que mexam connosco.
Depois, ele encafuava-me numa gruta, para que pudesse ouvir o eco da minha voz, o bafo de mim e os sentidos. Ele queria que eu percebesse que para respirar, é melhor estar sozinho. E lê-lo é essa solidão connosco, estando nele. Por isso, ele tinha a vida na ponta dos dedos sem medo de ser, acto contínuo.
Era um homem sem parágrafos porque a vida é escorreita. Deixava-me num deserto. Ele atirava-me sempre para um deserto. E a respiração ofegava-me perto dele. Era hormonal. Tudo nele era hormonal, por isso me apertava sempre o peito quando ele estava por perto, nem que fosse só um pedaço dele nas estantes do meu quarto. Sabia que se pegasse nele, se lhe folheasse a vida, não poderia voltar atrás.
Havia amor e ódio. Talvez não fosse ódio, mais uma repulsa. Ele não tinha o direito de me trazer a mim. Sempre trazia. Quando percebia, ele já o tinha feito. A vida com ele mudava sempre mais um pouco. Tornava-me mais pequena. E isso porque ele era bom a esmiuçar valores. Um colosso intratável, ácido, cáustico.
Das vezes que o vi, receei sempre não fazer a pergunta certa. Precisava tanto fazer a pergunta certa. Por isso, saiu-me: “O que o deixa feliz?”, cheguei a perguntar-lhe, há dois anos, no consulado de Portugal, em São Paulo, quando veio apresentar a Memória do Elefante. “Escrever”, respondeu-me. Era isso: a vida-divã na terapia do branco das páginas, como forma de não se trair. E ser quem estava preparado para ser: esse homem aziago e doce que só queria viver o melhor que podia para não se trair a si próprio. Então, viver a vida dele não era coisa leve e bonita de se viver. Viver a vida dele era sentar-me num divã de analista para dele nunca mais sair; e ver casas em chamas quando o que resta de nós está lá dentro e pode não sobrar nada. Será que sobra alguma coisa? Viver a vida dele era viver num abismo de identidade, numa nuvem densa, ainda que lúcida, sapiente, sobretudo se soubermos ler nas entrelinhas e tivermos coragem de agarrar a vida com a mesma rudeza, cadente, até ao ponto final. Houve alturas, confidencio, em que me esforcei para não o ler nas entrelinhas, mas ele arranjava sempre forma de me dizer: “Estás a ver aquilo que és! És isto, pó”.
Ainda que mo dissesse com palavras – nada que eu não soubesse – o mais acutilante era que elas encontravam maneira de ir directamente às gavetas da minha cabeça para se guardarem lá, impositivas e agarradas às texturas mais imperceptíveis. Ele sabia como entrar e de lá nunca mais sair. Ele remexia-me as feridas, as fragilidades, a pequenez e a insignificância a que se pode reduzir a vida. E que nada importa. (O que te importava a ti, afinal?).
Era isso que ele fazia com a vida para contar histórias: agarrava nela, amassava-a, cozia-a em forno lento (podia jurar que ouvia o crepitar da lenha lenta como ele gostava) e quase tudo o que de lá saía tinha sabor aziago, seco, rude. Demasiado rude para aquilo que estava preparada. Chegou, por isso, a dar-me alguns socos no estômago. Desconcertou-me ao mostrar que a lucidez está na cegueira, e que a cegueira está na lucidez, que a morte é intermitente, que a identidade é subversão, máscaras, desconstrução, reflexos e sempre um confronto entre nós e os outros; ou nós e nós próprios, as nossas frustrações, enquanto cobardes para sermos e mostrarmos quem realmente somos. Ele lembrou-me sempre que somos uns canalhas. Somos barro pobre que sai da terra para nos moldarmos numa coisa ainda mais vil. Somos Caim; somos esse homem “imaginário” (um outro nós que tantas vezes gostaríamos de ser e outras vezes renegamos) que vive cá dentro, desta redoma da possibilidade de ser à procura de outros portos, a trair-nos, sempre. Depois dele, nunca mais consegui voltar. Tornei-me num estado de excepção para não me trair, mas falho sempre um pouco.
(mantivemos a grafia de Portugal)

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