Crítico responde imediatamente a atriz Esther Goes

Crítico responde imediatamente à atriz Esther Goes

A atriz e diretora teatral, Esther Góes, manifestou-se através da assessoria de imprensa da peça A COLEÇÃO (em cartaz no Teatro Grande Otelo) sobre a avaliação crítica realizada por mim no dia 11 último no Portal Macunaima. Agradeço imensamente sua gentileza e serenidade da extraordinária artista, seguramente uma das mais influentes mulheres brasileiras da contemporaneidade, porém, gostaria de responder ao seu sincero e cordial agradecimento que se segue, abaixo, acrescentando um tema submerso que permeia o momento político e histórico de hoje, ou seja, “A lei do Silêncio” (minha tréplica vem logo, a seguir, à sua exposição).

"Respondendo ao Jair Alves

Imensamente grata pela análise lúcida que você fez do nosso espetáculo “A Coleção”, de Harold Pinter, e pela avaliação, transformada em pergunta sutil, de por que montar Pinter e encarar a dificuldade de não montar alguma coisa bem mais “fácil”.

Você pergunta o que nos leva, no momento presente, a preferir mostrar a teia de mentiras e estranhos comportamentos “naturais” dos quatro personagens de “A Coleção” – para Pinter, talvez, um desenho da lógica do real convívio humano. Não seria melhor fingir que isso nem existe?

Respondendo, prefiro citar duas afirmações de Pinter sobre o Teatro e o que ele persegue. Como sempre, o conteúdo do trabalho e o contexto de sua realização se confundem.

Ele disse:

“O Teatro é essencialmente investigador. Nem mesmo o velho Sófocles sabia o que ia acontecer na próxima cena. Ele precisava encontrar o caminho num território desconhecido. Ao mesmo tempo, o teatro sempre foi um ato crítico, um amplo olhar para a sociedade em que vivemos, tentando refletir e dramatizar essas descobertas. Não estamos falando da lua. São escavações.”

E também:

“Não posso dizer que todo trabalho que escrevi é político. Mas eu sinto a questão de como o poder é usado, e de como a violência é usada, como se aterroriza alguém, como se subjuga alguém, isto sempre esteve vivo no meu trabalho”.

Por estas questões, da investigação humana em desconhecido território, e por uma posição permanentemente crítica diante da nossa realidade social, é que criamos “A Coleção”, e que continuaremos a por em cena desafios e perguntas a qualquer plateia que tenha o desejo de responde-las e queira permanecer viva.

Você faz parte dela.

Um grande abraço

Esther Góes"

Querida companheira Esther,

Quis à história de nossos dias que você sucedesse a atriz, Lélia Abramo, à frente do Sindicato dos Artistas de São Paulo (1981-1983), num momento em que as artes e a Cultura no Brasil tinham de fato um valor definido muito além da “mercadoria e da moeda de troca” entre os “Poderes” da atualidade. Tenho orgulho por ter sido o seu parceiro nas infindáveis reuniões, naquelas manhãs de sábado, quando ainda acreditávamos sinceramente estar construindo um caminho sólido para os artistas e por, extensão, os caminhos democráticos da Nação. Como a matéria prima dos artistas sempre foi o sonho e a inspiração, lá estávamos nós firmes e fortes produzindo croquis do que seriam os dias atuais. O nosso prazo de validade se esgotou e voltamos todos para o dia a dia da árdua rotina de artista, mesmo estando no início de século XXI. Assim sendo, não me resta alternativa senão essa ler de forma panorâmica todo roteiro a que forçosamente estamos submetidos.

Cena 1 – O dramaturgo Plínio Marcos nas tardes insólitas de inverno que tomou conta desse país, frente ao Teatro de Arena e ao lado do ator Luiz Carlos Arutim fazia digressões a respeito das palavras, no palco, vindas da boca de atrizes das quais ele nunca abriu mão, dentre elas, Ruthinea de Moraes (e veja que ele ainda não tinha tido à oportunidade de ver as falas “plinianas” com todo o seu vigor oriundas de sua boca);

Cena 2 – Você mesma, após leitura de uma das peças de Guarnica, no Centro Cultural Banco do Brasil, também proseava na particularidade a respeito de seus projetos sobre a tragédia de Eurípides lembrava o desenvolvimento da palavra, ou de sua sistematização, com o surgimento do Parlamento Grego. No teatro houve também uma sistematização a partir daí. A cultura dita erudita, sofisticada idem;

Cena 3 – Ainda você ao lado de José Renato, após uma insólita apresentação no lendário Teatro de Arena me alertava a respeito da frequência ao apelo à memória, e eu ainda pensando sobre o tema até os dias de hoje;

Cena 4 – Atualmente, sitiados num quase centenário teatro cravado na histórica região dos Campos Elíseos, vários atores que escreveram a história do teatro brasileiro, um olhando para a cara do outro, sem entender aquilo que está acontecendo, pior, ainda sem saber o que está por vir.

Conclusão (ou se é possível de momento concluir qualquer coisa): “Assim como Pinter, Plínio, Brecht, Durrenmatt que talvez tenham perdido a sua importância, a palavra está perdendo o seu sentido. Ao somar a sua coragem e também de toda equipe de a “A COLEÇÃO” estão criando uma cena “brechtiana” tão silenciosa quanto impactante. A palavra no teatro vem se tornando um “grito surdo”".

Adelante, antes que sea tarde!!!

Jair Alves

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