ECOS DO PORÃO

EXCELENTE ANÁLISE DE MARILENA CHAUÍ

UMA ANALISE DE MARILENA CHAUÍ

O Pensador da Aldeia

Um panfleto de Política, Filosofia e outras Revoltas. A esperança é desnecessária.

sábado, 29 de junho de 2013

Marilena Chauí: “convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência”

As manifestações de junho de 2013 na cidade de São Paulo

por Marilena Chauí

Observações preliminares

O que segue não são reflexões sobre todas as manifestações ocorridas no país, mas focalizam principalmente as ocorridas na cidade de São Paulo, embora algumas palavras de ordem e algumas atitudes tenham sido comuns às manifestações de outras cidades (a forma da convocação, a questão da tarifa do transporte coletivo como ponto de partida, a desconfiança com relação à institucionalidade política como ponto de chegada) bem como o tratamento dado a elas pelos meios de comunicação (condenação inicial e celebração final, com criminalização dos “vândalos”) permitam algumas considerações mais gerais a título de conclusão.

O estopim das manifestações paulistanas foi o aumento da tarifa do transporte público e a ação contestatória da esquerda com o Movimento Passe Livre (MPL), cuja existência data de 2005 e é composto por militantes de partidos de esquerda. Em sua reivindicação especifica, o movimento foi vitorioso sob dois aspectos: 1. conseguiu a redução da tarifa; 2. definiu a questão do transporte público no plano dos direitos dos cidadãos e, portanto, afirmou o núcleo da prática democrática, qual seja, a criação e defesa de direitos por intermédio da explicitação (e não do ocultamento) dos conflitos sociais e políticos.

O inferno urbano

Não foram poucos os que, pelos meios de comunicação, exprimiram sua perplexidade diante das manifestações de junho de 2013: de onde vieram e por que vieram se os grandes problemas que sempre atormentaram o país (desemprego, inflação, violência urbana e no campo) estão com soluções bem encaminhadas e reina a estabilidade política? As perguntas são justas, mas a perplexidade, não, desde que  voltemos nosso olhar para um ponto que foi sempre o foco dos movimentos populares: a situação da vida urbana nas grandes metrópoles brasileiras.

Quais os traços mais marcantes da cidade de São Paulo nos últimos anos e que, sob certos aspectos, podem ser generalizados para as demais? Resumidamente, podemos dizer que são os seguintes:

– explosão do uso do automóvel individual: a mobilidade urbana se tornou quase impossível, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura com um sistema viário destinado aos carros individuais em detrimento do transporte coletivo, mas nem mesmo esse sistema é capaz de resolver o problema;

– explosão imobiliária com os grandes condomínios (verticais e horizontais) e shopping centers, que produzem uma densidade demográfica praticamente incontrolável além de não contar com uma rede de água, eletricidade e esgoto, os problemas sendo evidentes, por exemplo, na ocasião de chuvas;

– aumento da exclusão social e da desigualdade com a expulsão dos moradores das regiões favorecidas pelas grandes especulações imobiliárias e o conseqüente aumento das periferias carentes e de sua crescente distância com relação aos locais de trabalho, educação e serviços de saúde. (No caso de São Paulo, como aponta Hermínia Maricatto, deu-se a ocupação das regiões de mananciais, pondo em risco a saúde de toda a população); em resumo: degradação da vida cotidiana das camadas mais pobres da cidade;

– o transporte coletivo indecente, indigno e mortífero.  No caso de São Paulo, sabe-se que o programa do metrô previa a entrega de 450 k de vias até 1990; de fato, até 2013, o governo estadual apresenta 90 k. Além disso, a frota de trens metroviários não foi ampliada, está envelhecida e mal conservada; além da insuficiência quantitativa para atender a demanda, há atrasos constantes por quebra de trens e dos instrumentos de controle das operações. O mesmo pode ser dito dos trens da CPTU, que também são de responsabilidade do governo estadual. No caso do transporte por ônibus, sob responsabilidade municipal, um cartel domina completamente o setor sem prestar contas a ninguém: os ônibus são feitos com carrocerias destinadas a caminhões, portanto, feitos para transportar coisas e não pessoas; as frotas estão envelhecidas e quantitativamente defasadas com relação às necessidades da população, sobretudo as das periferias da cidade; as linhas são extremamente longas porque isso as torna mais lucrativas, de maneira que os passageiros são obrigados a trajetos absurdos, gastando horas para ir ao trabalho, às escolas, aos serviços de saúde e voltar para casa; não há linhas conectando pontos do centro da cidade nem linhas inter-bairros, de maneira que o uso do automóvel individual se torna quase inevitável para trajetos menores;

Em resumo: definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, empreiteiras da construção civil e empresas de transporte coletivo dominam a cidade sem assumir qualquer responsabilidade pública, impondo o que chamo de inferno urbano.

2. As manifestações paulistanas

A tradição de lutas

Recordando: A cidade de São Paulo (como várias das grandes cidades brasileiras) tem uma tradição histórica de revoltas populares contra as péssimas condições do transporte coletivo, isto é, a tradição do quebra-quebra quando, desesperados e enfurecidos, os cidadãos quebram e incendeiam ônibus e trens (à maneira do que faziam os operários no início da Segunda Revolução Industrial, quando usavam os tamancos de madeira – em francês, os sabots – para quebrar as máquinas – donde a palavra francesa sabotage, sabotagem). Entretanto, não foi este o caminho tomado pelas manifestações atuais e valeria a pena indagar por que. Talvez porque, vindo da esquerda, o MPL politiza explicitamente a contestação, em vez de politiza-la simbolicamente, como faz o quebra-quebra.

Recordando: Nas décadas de 1970 a 1990, as organizações de classe (sindicatos, associações, entidades) e os movimentos sociais e populares tiveram um papel político decisivo na implantação da democracia no Brasil pelos seguintes motivos: 1. introdução da idéia de direitos sociais, econômicos e culturais para além dos direitos civis liberais; 2. afirmação da capacidade auto-organizativa da sociedade; 3. introdução da prática da democracia participativa como condição da democracia representativa a ser efetivada pelos partidos políticos. Numa palavra: sindicatos, associações, entidades, movimentos sociais e movimentos populares eram políticos, valorizavam a política, propunham mudanças políticas e rumaram para a criação de partidos políticos como mediadores institucionais de suas demandas.

Isso quase desapareceu da cena histórica como efeito do neoliberalismo, que produziu: 1. fragmentação, terceirização e precarização do trabalho (tanto industrial como de serviços) dispersando a classe trabalhadora, que se vê diante do risco da perda de seus referenciais de identidade e de luta; 2. refluxo dos movimentos sociais e populares e sua substituição pelas ONGs, cuja lógica é distinta daquela que rege os movimentos sociais; 3. surgimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea, fragmentada, ainda desorganizada e que por isso ainda não tem suas próprias formas de luta e não se apresenta no espaço público e que por isso mesmo é atraída e devorada por ideologias individualistas como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a ideologia do “empreendedorismo” (da classe média), que estimulam a competição, o isolamento e o conflito inter-pessoal, quebrando formas anteriores de sociabilidade solidária e de luta coletiva.

Erguendo-se contra os efeitos do inferno urbano, as manifestações guardaram da tradição dos movimentos sociais e populares a organização horizontal, sem distinção hierárquica entre dirigentes e dirigidos. Mas, diversamente dos movimentos sociais e populares,  tiveram uma forma de convocação que as transformou num movimento de massa, com milhares de manifestantes nas ruas.

O pensamento mágico

A convocação foi feita por meio das redes sociais. Apesar da celebração  desse tipo de convocação, que derruba o monopólio dos meios de comunicação de massa, entretanto é preciso mencionar alguns problemas postos pelo uso dessas redes, que possui algumas características que o aproximam dos procedimentos da midia:

1. é indiferenciada: poderia ser para um show da Madonna, para uma maratona esportiva, etc. e calhou ser por causa da tarifa do transporte público;

2. tem a forma de um evento, ou seja, é pontual, sem passado, sem futuro e sem saldo organizativo porque, embora tenha partido de um movimento social (o MPL), à medida que cresceu passou á recusa gradativa da estrutura de um movimento social para se tornar um espetáculo de massa. (Dois exemplos confirmam isso: a ocupação de Wall Street pelos jovens de Nova York e que, antes de se dissolver, se tornou um ponto de atração turística para os que visitavam a cidade; e o caso do Egito, mais triste, pois com o fato das manifestações permanecerem como eventos e não se tornarem uma forma de auto-organização política da sociedade, deram ocasião para que os poderes existentes passassem de uma ditadura para outra);

3. assume gradativamente uma dimensão mágica, cuja origem se encontra na natureza do próprio instrumento tecnológico empregado, pois este opera magicamente, uma vez que os usuários são, exatamente, usuários e, portanto, não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam – ou seja, deste ponto de vista, encontram-se na mesma situação que os receptores dos meios de comunicação de massa. A dimensão é mágica porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer. Ora, além da ausência de controle real sobre o instrumento, a magia repõe um dos recursos mais profundos da sociedade de consumo difundida pelos meios de comunicação, qual seja, a idéia de satisfação imediata do desejo, sem qualquer mediação;

4. a recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto,  indiferente à determinação de classe social; ou seja, no caso presente, ao se apresentar como uma ação da juventude, o movimento  assume a aparência de que o  universo dos manifestantes é homogêneo ou de massa, ainda que, efetivamente, seja heterogêneo do ponto de vista econômico, social e político, bastando lembrar que as manifestações das periferias não foram apenas de “juventude” nem de classe média, mas de jovens, adultos, crianças e idosos da classe trabalhadora.

No ponto de chegada, as manifestações introduziram o tema da corrupção política e a recusa dos partidos políticos. Sabemos que o MPL é constituído por militantes de vários partidos de esquerda e, para assegurar a unidade do movimento, evitou a referência aos partidos de origem. Por isso foi às ruas sem definir-se como expressão de partidos políticos e, em São Paulo, quando, na comemoração da vitória, os militantes partidários compareceram às ruas foram execrados, espancados, e expulsos como oportunistas – sofreram repressão violenta por parte da massa. Ou seja, alguns manifestantes praticaram sobre outros a violência que condenaram na polícia,

A crítica às instituições políticas não é infundada, mas possui base concreta:

a)    no plano conjuntural: o inferno urbano é, efetivamente, responsabilidade dos partidos políticos governantes;

b)    no plano estrutural: no Brasil, sociedade autoritária e excludente, os partidos políticos tendem a ser clubes privados de oligarquias locais, que usam o público para seus interesses privados; a qualidade dos legislativos nos três níveis é a mais baixa possível e a corrupção é estrutural; como consequência,  a relação de representação não se concretiza porque vigoram relações de favor, clientela, tutela e cooptação;

c)    a crítica ao PT:  de ter abandonado a relação com aquilo que determinou seu nascimento e crescimento, isto é, o campo das lutas sociais auto-organizadas e ter-se transformado numa máquina burocrática e eleitoral (como têm dito e escrito muitos militantes ao longo dos últimos 20 anos).

Isso, porém, embora explique a recusa, não significa que esta tenha sido motivada pela clara compreensão do problema por parte dos manifestantes. De fato, a maioria deles não exprime em suas falas uma análise das causas desse modo de funcionamento dos partidos políticos, qual seja, a estrutura autoritária da sociedade brasileira, de um lado, e, de outro, o sistema político-partidário montado pelos casuísmos da ditadura. Em lugar de lutar por uma reforma política, boa parte dos manifestantes recusa a legitimidade do partido político como instituição republicana e democrática. Assim, sob este aspecto, apesar do uso das redes sociais e da crítica aos meios de comunicação, a maioria dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica difundida anos a fio pelos meios de comunicação de que os partidos são corruptos por essência. Como se sabe, essa posição dos meios de comunicação tem a finalidade de lhes conferir o monopólio das funções do espaço público, como se não fossem empresas  capitalistas movidas por interesses privados. Dessa maneira,  a recusa dos meios de comunicação e as críticas a eles endereçadas pelos manifestantes não impediram que grande parte deles aderisse à perspectiva da classe média conservadora difundida pela mídia a respeito da ética. De fato, a maioria dos manifestantes, reproduzindo a linguagem midiática, falou de ética na política (ou seja, a transposição dos valores do espaço privado para o espaço público), quando, na verdade, se trataria de afirmar a ética da política (isto é, valores propriamente públicos), ética que não depende das virtudes morais das pessoas privadas dos políticos e sim da qualidade das instituições públicas enquanto instituições republicanas. A ética da política, no nosso caso, depende de uma profunda reforma política que crie instituições democráticas republicanas e destrua de uma vez por todas a estrutura deixada pela ditadura, que força os partidos políticos a coalizões absurdas se quiserem governar, coalizões que comprometem o sentido e a finalidade de seus programas e abrem as comportas para a corrupção. Em lugar da ideologia conservadora e midiática de que, por definição e por essência, a política é corrupta, trata-se de promover uma prática inovadora capaz de criar instituições públicas que impeçam a corrupção, garantam a participação, a representação e o controle dos interesses públicos e dos direitos pelos cidadãos. Numa palavra, uma invenção democrática.

Ora, ao entrar em cena o pensamento mágico, os manifestantes deixam de lado que, até que uma nova forma da política seja criada num futuro distante quando, talvez, a política se realizará sem partidos, por enquanto, numa república democrática (ao contrário de uma ditadura) ninguém governa sem um partido, pois é este que cria e prepara quadros para as funções governamentais para concretização dos objetivos e das metas dos governantes eleitos. Bastaria que os manifestantes se informassem sobre o governo Collor para entender isso: Collor partiu das mesmas afirmações feitas por uma parte dos manifestantes (partido político é coisa de “marajá” e é corrupto) e se apresentou como um homem sem partido. Resultado: a) não teve quadros para montar o governo, nem diretrizes e metas coerentes e b) deu feição autocrática ao governo, isto é, “o governo sou eu”. Deu no que deu.

Além disso, parte dos manifestantes está adotando a posição ideológica típica da classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais. Eis porque surge a afirmação de muitos manifestantes, enrolados na bandeira nacional, de que “meu partido é meu país”, ignorando, talvez, que essa foi uma das afirmações fundamentais do nazismo contra os partidos políticos.

Assim, em lugar de inventar uma nova política, de ir rumo a uma invenção democrática, o pensamento mágico de grande parte dos manifestantes se ergueu contra a política, reduzida à figura da corrupção. Historicamente, sabemos onde isso foi dar. E por isso não nos devem surpreender, ainda que devam nos alarmar, as imagens de jovens militantes de partidos e movimentos sociais de esquerda espancados e ensangüentados durante a manifestação de comemoração da vitória do MPL. Já vimos essas imagens na Itália dos anos 1920, na Alemanha dos anos 1930 e no Brasil dos anos 1960-1970.

Conclusão provisória

Do ponto de vista simbólico, as manifestações possuem um sentido importante que contrabalança os problemas aqui mencionados.

Não se trata, como se ouviu dizer nos meios de comunicação, que finalmente os jovens abandonaram a “bolha” do condomínio e do shopping center e decidiram ocupar as ruas (já podemos prever o número de novelas e mini-séries que usarão essa idéia para incrementar o programa High School Brasil, da Rede Globo). Simbolicamente, malgrado eles próprios e malgrado suas afirmações explícitas contra a política, os manifestantes realizaram um evento político: disseram não ao que aí está, contestando as ações dos poderes executivos municipais, estaduais e federal, assim como as do poder legislativo nos três níveis. Praticando a tradição do humor corrosivo que percorre as ruas, modificaram o sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência, indicaram uma nova possibilidade de práxis política, uma brecha para repensar o poder, como escreveu um filósofo político sobre os acontecimentos de maio de 1968 na Europa.

Justamente porque uma nova possibilidade política está aberta, algumas observações merecem ser feitas para que fiquemos alertas aos riscos de apropriação e destruição dessa possibilidade pela direita conservadora e reacionária.

Comecemos por uma obviedade: como as manifestações são de massa (de juventude, como propala a mídia) e não aparecem em sua determinação de classe social, que, entretanto, é clara na composição social das manifestações das periferias paulistanas, é preciso lembrar que uma parte dos manifestantes não vive nas periferias das cidades, não experimenta a violência do cotidiano experimentada pela outra parte dos manifestantes. Com isso, podemos fazer algumas indagações. Por exemplo: os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)? Os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?

Essas indagações não são gratuitas nem expressão de má-vontade a respeito das manifestações de 2013. Elas têm um motivo político e um lastro histórico.

Motivo político: assinalamos anteriormente o risco de apropriação das manifestações rumo ao conservadorismo e ao autoritarismo. Só será possível evitar esse risco se os jovens manifestantes levarem em conta algumas perguntas:

1. estão dispostos a lutar contra as ações que causam o inferno urbano e, portanto, enfrentar pra valer o poder do capital de montadoras, empreiteiras e cartéis de transporte que, como todo sabem não se relacionam  pacificamente (para dizer o mínimo) com demandas sociais?

2. estão dispostos a abandonar a suposição de que a política se faz magicamente sem mediações institucionais?

3. estão dispostos a se engajar na luta pela reforma política, a fim de inventar uma nova política, libertária, democrática, republicana, participativa?

4. estão dispostos a não reduzir sua participação a um evento pontual e efêmero e a não se deixar seduzir pela imagem que deles querem produzir os meios de comunicação?

Lastro histórico: quando Luiza Erundina, partindo das demandas dos movimentos populares e dos compromissos com a justiça social, propôs a Tarifa Zero para o transporte público de São Paulo, ela explicou à sociedade que a tarifa precisava ser subsidiada pela Prefeitura e que ela não faria o subsídio implicar em cortes nos orçamentos de educação, saúde, moradia e assistência social, isto é, dos programas sociais prioritários de seu governo. Antes de propor a Tarifa Zero, ela aumentou em 500% a frota da CMTC (explicação para os jovens: CMTC era a antiga empresa municipal de transporte) e forçou os empresários privados a renovar sua frota. Depois disso, em inúmeras audiências públicas, ela apresentou todos os dados e planilhas da CMTC e obrigou os empresários das companhias privadas de transporte coletivo a fazer o mesmo, de maneira que a sociedade ficou plenamente informada quanto aos recursos que seriam necessários para o subsídio. Ela propôs, então, que o subsídio viesse de uma mudança tributária: o IPTU progressivo, isto é, o imposto predial seria aumentado para os imóveis dos mais ricos, que contribuiriam para o subsídio juntamente com outros recursos da Prefeitura. Na medida que os mais ricos, como pessoas privadas, têm serviçais domésticos que usam o transporte público, e, como empresários, têm funcionários usuários desse mesmo transporte, uma forma de realizar a transferência de renda, que é base da justiça social, seria exatamente fazer com que uma parte do subsídio viesse do novo IPTU. Os jovens manifestantes de hoje desconhecem o que se passou: comerciantes fecharam ruas inteiras, empresários ameaçaram lockout das empresas, nos “bairros nobres” foram feitas  manifestações contra o “totalitarismo comunista” da prefeita e os poderosos da cidade “negociaram” com os vereadores a não aprovação do projeto de lei. A Tarifa Zero não foi implantada. Discutida na forma de democracia participativa, apresentada com lisura e ética política, sem qualquer mancha possível de corrupção, a proposta foi rejeitada. Esse lastro histórico mostra o limite do pensamento mágico, pois não basta ausência de corrupção, como imaginam os manifestantes, para que tudo aconteça imediatamente da melhor maneira e como se deseja.

Cabe uma última observação: se não levarem em consideração a divisão social das classes, isto é, os conflitos de interesses e de poderes econômico-sociais na sociedade, os manifestantes não compreenderão o campo econômico-político no qual estão se movendo quando imaginam estar agindo fora da política e contra ela. Entre os vários riscos dessa imaginação, convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência.

Fontehttp://midiafazmal.wordpress.com/2013/06/27/marilena-chaui-sobre-manifestacoes-2013-2/

Publicado em 23/06/2013

O Anonymous tem nome ?
É CIA ?

Por que os EUA querem uma base no Paraguai ? E por que relançaram a 5a. Frota em cima do pré-sal do Brasil e da África ? E por que o Lula vai tanto à África ? – PHA

Sugestão do amigo navegante Ivo Pugnaloni:

Post exclusivo pra quem gosta de teorias da conspiração


Gráfico desenvolvido por Sergio Amadeu demonstra que os perfis ligados ao Anonymous Brasil e AnonymousBR foram os mais importantes para a disseminação de conteúdo relacionado às manifestações do Movimento Passe Livre no dia 17 de junho de 2013

Por Luiz Carlos Azenha, respondendo ao que me perguntaram aqui e ali e testando hipóteses

REVOLTA ANTICAPITALISTA?

Se fosse, os manifestantes teriam se dirigido à fábrica da Volks em São Bernardo, para cercá-la. É o símbolo do capitalismo industrial no Brasil e de onde saem os automóveis que entopem as ruas das metrópoles e inviabilizam o transporte público. Provavelmente os manifestantes teriam de enfrentar os trabalhadores da Volks, que não querem perder os próprios empregos.

Se fosse uma revolta anticapitalista, os manifestantes teriam cercado a sede do Itaú, que tem lucros bilionários graças aos juros e taxas escorchantes. Provavelmente seriam rechaçados pelos bancários, que não querem perder os próprios empregos. Uma coisa eu garanto: se a revolta se tornar anticapitalista, some do Jornal Nacional.

REVOLTA DA CLASSE MÉDIA?

O comando é da classe média urbana que tem bom acesso à internet nas regiões metropolitanas. Frações da classe trabalhadora remediada, aquela que ascendeu  ao longo do governo Lula, aderiram.

O lúmpen vai no bolo. Quando ele se manifesta politicamente através do saque, é reprimido.

Parar uma rodovia estratégica, causando milhões de reais em prejuízo para o público em geral, é aceitável; invadir uma loja de automóveis e “espancar” os veículos, causando um prejuízo de alguns milhares de reais, é um horror! O que guia esta rebelião juvenil são valores da classe média e seus interesses de classe — pelo menos é o que nos quer fazer crer a mídia.

CONTRA O ESTADO?

Os ataques se concentram em prédios públicos ou obras públicas consideradas desnecessárias pelos manifestantes, como os estádios da Copa. O ex-presidente Lula, em seus dois mandatos, trouxe o debate ideológico para dentro do governo, resolvido em conchavos de bastidores a portas fechadas.

Os manifestantes agora batem na porta, de forma espontânea e desarticulada. Só acredito tratar-se de um movimento progressista quando surgir algum cartaz pedindo a taxação da fortuna da família Marinho para financiar o transporte público gratuito;  quando os manifestantes se dirigirem às garagens das grandes empresas de ônibus que financiam campanhas políticas e tem lucros extraordinários para protestar; quando incluirem na pauta do debate sobre corrupção a Privataria Tucana, corruptores, empreiteiras e o jabá que a Globo paga às agências para manter o monopólio das verbas publicitárias. Por enquanto, só se debate a corrupção pública, nunca a corrupção privada.

NOSSO GUIA?

Um estudo de Sergio Amadeu demonstrou que vários perfis dos Anonymous são os mais influentes na disseminação das mensagens dos manifestantes que se organizam em redes sociais. Quem faz a cabeça dos Anonymous? A cabeça dos Anonymous é feita no Brasil ou fora do Brasil?

P2 E INFILTRADORES?

Houve várias denúncias de que infiltradores e provocadores agem em manifestações. Um grande número de despolitizados nas ruas, sem lideranças conhecidas e organizados de forma horizontal ficam sujeitos a todo o tipo de manipulação. São alvo fácil para todo tipo de agenda. Desde a dos militares que se revoltam contra a Comissão da Verdade a outros agentes interessados em criar algum tipo de instabilidade institucional.

Embora não haja provas disso, a denúncia de uma conspiração internacional foi assumida pelo primeiro ministro da Turquia, Recep Erdogan.

CONJUNTURA INTERNACIONAL INDICA CONSPIRAÇÃO?

O Brasil é o pilar central de sustentação de um projeto alternativo à hegemonia completa dos Estados Unidos na América do Sul. Não fosse Lula e Dilma, o risco de uma derrota de Nicolás Maduro em recentes eleições na Venezuela teria sido muito maior. O apoio do Brasil é essencial ao Mercosul, à Unasul e a outras iniciativas de caráter regional.

Desde a ascensão de Hugo Chávez os Estados Unidos desenvolvem planos abertos — via sociedade civil — e secretos para instalar um governo que garanta acesso às maiores reservas de petróleo do mundo em condições mais vantajosas para Washington. Pelo seu tamanho, as reservas da Venezuela são o fiel da balança na determinação dos preços internacionais do petróleo. Em menor escala, o mesmo podemos dizer sobre o pré-sal. Portanto, não devemos descartar 100% a possibilidade de ação subterrânea, especialmente através das redes sociais, onde muita gente atua atrás da cortina do anonimato. O ciberespaço é hoje território de guerra. Mas, repito, não há qualquer indício, nem prova de que isso de fato esteja acontecendo.

BOICOTE TARDIO À COPA?

Sei lá, mas o vídeo bombou.

REVOLUÇÃO COLORIDA?

Duvido. Ou, pelo menos, não existe qualquer prova disso. O dado concreto é de que temos um tremendo descontentamento dos jovens com as instituições brasileiras — e este é o motor principal. Porém, como se perguntou Gilberto Maringoni durante ato da Paulista: como explicar a revolta num país com alta taxa de emprego e com crescimento econômico razoável?

As revoluções coloridas, como se sabe, foram promovidas através de investimento direto ou indireto de ONGs dos Estados Unidos, algumas delas com financiamento público, como o National Endowment for Democracy (NED), que desenvolve programas de “promoção de democracia” em várias partes do mundo; ou a Open Society, do especulador George Soros. Há vários livros ou artigos, como este, descrevendo a atuação mundial destas organizações. Elas foram bem sucedidas em diversas rebeliões que derrubaram governos na Europa Oriental, com a mobilização de jovens através das mídias sociais.

As campanhas obedeciam técnicas inovadoras de marketing, símbolos e palavras de ordem de fácil entendimento. Também há relatos sobre a atuação destes grupos antes ou durante a Primavera Árabe. Argumenta-se que o objetivo dos Estados Unidos é promover governos mais dóceis ou causar instabilidade interna que deixe os governos mais vulneráveis a seus interesses. Na Líbia, a derrubada do ditador pela via militar teria tido o objetivo não de “promover a democracia”, mas de obter melhores condições na exploração do petróleo e eliminar um governo que sustentava o projeto político da África para os africanos, muito parecido com o papel que o Brasil desempenha na América do Sul.

A jornalista canadense Eva Golinger escreveu um livro, chamado USAID, NED e CIA, Uma Agressão Permanente, sobre a atuação destes organismos dos Estados Unidos na Bolívia, Cuba, Honduras e Venezuela (clique no link para baixar o livro em PDF). A possibilidade de um golpe institucional foi aventada por leitores depois que a embaixadora dos Estados Unidos no Paraguai, Liliana Ayalde, foi indicada para ocupar o cargo no Brasil. Ela teve uma longa trajetória na USAID, a agência de desenvolvimento internacional de Washington e estava em Assunção quando o presidente Fernando Lugo foi derrubado.

ATAQUES COMBINADOS?

Muito embora não exista uma coordenação nacional organizada, chama a atenção o fato de que ações parecidas tenham acontecido em lugares distintos, como a repressão a ativistas de esquerda ou de movimentos sociais que portavam seus símbolos. O mesmo se pode dizer dos ataques a viaturas da mídia, uma para cada emissora: Record, SBT e Bandeirantes. Isso é garantia de que a mídia não fará uma cobertura negativa dos acontecimentos? Não sei.

INFILTRADOS NA ESQUERDA?

Nem um fio de indício ou prova desta teoria conspiratória. Ela é sustentada aparentemente pelos leitores do livro Quem Pagou a Conta? A CIA na Guerra Fria da Cultura. Este e outros livros demonstram que, ao longo da guerra fria, a agência de espionagem dos Estados Unidos financiou direta ou indiretamente muitas pessoas ou organizações tidas como “de esquerda”.

AÇÃO CLANDESTINA NACIONAL?

Aí, sim. Improvável, mas possível. Hoje, pela segunda vez, a Globo mostrou em jogo da seleção brasileira a marca #ogiganteacordou em cartaz. A primeira foi no jogo Brasil vs. México. Agora, reaparece na partida Brasil vs. Itália. Onde anda aquele guru indiano do José Serra?

COINCIDÊNCIA?

Houve uma campanha midiática contra Lula no ano que antecedeu sua reeleição, em 2005. As denúncias foram formuladas no laboratório de Carlinhos Cachoeira e propagadas pela revista Veja. Dilma Rousseff vive o ano que antecede aquele em que poderá ser reeleita sob várias crises: apagão elétrico que nunca se materializou, hiperinflação do tomate de 5% ao ano e agora rebelião juvenil organizada através das redes sociais. Coincidência? Mas o cavalo-de-pau dado pela mídia na cobertura da rebelião juvenil reforça a tese do oportunismo, não de uma ação pré-organizada.

Clique aqui para ler: tem Cabo Anselmo aos montes, nas ruas.

Aqui para ler: manifestação da Copa é encomendada.

E aqui para ler a denúncia do Tijolaço sobre os vídeos da extrema-direita.

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socióloga, militante feminista, escritora, vez em quando jornalista. Também publico no “Mulher Alternativa” e no “Outras Palavras”. @MariliaMoscou
PublishedJune 22, 2013

Que golpe?

Uma explicação necessária e algumas novas peças para o quebra-cabeças dos recentes acontecimentos em todo o país.

[aviso aos navegantes: este texto, como tudo que escrevo, é de esquerda. se você está em dúvida sobre o que isso significa, hoje saiu um vídeo que explica de maneira simples, prática e direta, assim você pode entender melhor como seus posicionamentos se alinham no contexto político-histórico mais geral]


Há pouco mais de 24 horas descobri que um texto que publiquei aqui no Medium tinha se tornado “viral”, como dizem. Não consegui parar de ler comentários, emails, dúvidas, mensagens que chegavam me respondendo se eu estava louca mesmo (por achar que talvez houvesse um golpe de articulando, de alguma maneira). Outros, igualmente interessantes, discordavam de mim e debatiam os pontos que levantei de maneira bem inteligente. Alguns, claro, eram pura baboseira e ódio enrustido e esses, gente, eu não tenho culpa alguma em deletar.

O fato de tantas pessoas compartilharem comigo suas percepções individuais sobre os fatos mais recentes da política, das ruas, me colocou no lugar de espectadora privilegiada. Estou tendo acesso a muitas histórias, relatos, experiências que não teria de outra maneira. Para uma socióloga com um lado de jornalista, é um presente sem tamanho. Agradeço as mensagens e aviso que as responderei na medida do possível (sério, são muitas mesmo).

Essas percepções, histórias, relatos e experiências não deixam de ser peças importantíssimas nesse quebra-cabeças do qual talvez eu esteja sendo porta-voz, mas que claramente não é só meu. Quem não está confuso é porque está de olhos fechados, eu arrisco dizer. Pra ficarmos confusos e confusas todxs de vez, escolhi continuar investigando informalmente esses interesses políticos dissimulados que estão começando a se desenhar um pouco melhor de todos os lados do quadro atual.


Aviso de texto longo.
Pois é. De novo. Eu sei, gente. Mas é tanta coisa acontecendo e tão pouco tempo pra organizar a cabeça que não estou encontrando outra saída. Me perdoem. Se quiserem podem imprimir pra ler com calma. Tentei novamente dividir em partes menores pra fluir melhor a leitura.


1. Por que dariam um “golpe”, que golpe seria esse e quem seria responsável?

Essa foi a primeira pergunta que fiz a mim mesma antes da terça-feira (18). Me achei paranóica, na ocasião, porque para mim está claro que: (i) um golpe militar não combinaria tanto com a forma atual que a política brasileira e a política internacional tomaram nas últimas décadas; (ii) o governo atual, embora tenha algumas políticas de esquerda, constrói um projeto neoliberal de Estado; (iii) ainda não se desenhou publicamente nenhuma liderança ou grupo de liderança política que não esteja no poder e possa ameaçar quem foi eleito/a democraticamente.

Se eu defendo esses três pontos, porém, como posso ao mesmo tempo defender que estejamos à beira de um golpe? Do que estou falando, afinal de contas, quando uso a palavra “golpe”?

Bom, mesmo se descartarmos totalmente a possibilidade de um golpe militar (levando como brincadeira/delírio/viagem/paranoia coisas como essa, essa, essa, essa ou essa), ainda sobram diferentes formas de golpe. Um golpe, nesse caso, também não é necessariamente um golpe de Estado, que destitua a presidenta do cargo para o qual foi democraticamente eleita.

No momento atual, penso ser mais provável um golpe de opinião pública, midiático, para apoiar a instauração de políticas autoritárias e conservadoras dentro de um Estado democrático de direito. Para explicar essa percepção, preciso recorrer, como tantas vezes, à história política, que também me ajuda a explicar que grupos teriam maior interesse nesse tipo de manobra. Mais do que isso, precisamos entender de que maneira o poder sempre foi concentrado na sociedade brasileira e que ferramentas foram usadas para mantê-lo assim.

2. Quem participa do poder público no Brasil?

Em 1824 o senhor Dom Pedro I fez a primeira Constituição Brasileira. Ele era, não esqueçamos, um homem, branco, nobre, proprietário de terras. Pois bem. O direito de voto, nesse documento, se limitava a cidadãos que possuíssem uma certa renda mínima anual (que não era pouca). Chamamos isso de voto censitário. Mulheres e negros não possuíam renda, então acho que vocês conseguem imaginar quem de fato podia participar do sistema político na época.
[caso não tenha ficado claro: homens, brancos, com poder econômico]

Não houve grandes modificações nesse perfil até o início do século XX, quando a Lei Saraiva acabou com o voto censitário. Teríamos uma república socialista brasileira, logo no início do século? Que nada. Não se iludam. A mesma lei que revogou o voto censitário limitou o direito de voto aos cidadãos alfabetizados (homens ainda, que fique claro).

Caso não tenham se atentado para tal fato, o Brasil não tinha um sistema educacional público massivo. Quem frequentava as poucas escolas públicas (e muitas particulares, sobretudo no exterior) eram os filhos daqueles que já podiam votar antes, porque concentravam o poder econômico do país (latifundiários, escravocratas e seus descendentes, etc). A população negra, por exemplo, foi proibida de frequentar escolas públicas durante muito tempo. As mulheres (que puderam votar apenas partir de 1932, se fossem alfabetizadas) também não tinham escolarização, em geral. Isso quer dizer que, na prática, a mudança não mudava tanta coisa assim.

A próxima grande reforma veio na Constituição de 1934. Em termos de representatividade do povo entre o eleitorado, porém, não avançamos tanto com exceção do direito de voto das mulheres. Durante o Estado Novo (ditadura imposta por Getúlio Vargas) os direitos políticos foram revogados, e a população em geral continuou afastada do poder público. Mesmo após o fim dessa primeira ditadura, o voto continuou condicionado à alfabetização. Na ditadura militar, então, os direitos políticos foram novamente cassados.

Isso tudo significa que foi apenas em 1988 que a população brasileira como um todo conquistou o sufrágio universal. Gente, 1988. São 25 anos de lá pra cá. É pouco, bem pouco.

Isso significa também que, até 1988, a grande maioria da população era absolutamente excluída do poder público. Essa distância tem um efeito importante (e grave): faz com que o Estado pareça ser “eles”, um grupo distante e longínquo, que nada tem a ver com o “nós” daqui. Como se um não afetasse o outro. Como se nós não fôssemos responsáveis pelo Estado e nem o Estado pelas condições de nossas vidas. Sacam? Pois guardem essa informação pra jajá.

Também guardem a informação de que foi apenas em 1988 que o poder econômico deixou de ser, em absoluto, um pré-requisito para exercer algum tipo de participação no Estado. Quer dizer, os efeitos do atrelamento de um e outro nós vemos até hoje (vamos lá conferir o patrimônio dos que conseguem se eleger no legsilativo federal?). É fato inegável. Mas o primeiro pequeno passo para desatrelar poder público e poder econômico foi dado nessa Constituição.

3. Educação e educação política

Uma outra estratégia utilizada (não apenas no Brasil) para manter a população, em massa, afastada do poder público e da política, é a forma como se constróem os sistemas escolares. Em especial, como se definem currículos e obrigações desse tipo de instituição. A quem a escola serve? A quem e a quê ela tem servido ao longo da história do Brasil, quando pensamos em política e no poder público?

Voltemos lá pro “começo”: não havia um sistema educacional centrado no Estado, regulado pelo Estado, gratuito e amplamente disseminado país afora até o século XX. A escola era uma instituição pouco acessível, e a alfabetização também. Para o assunto deste texto, o que importa ainda mais do que isso era a função declarada da escola pública. Pelo menos desde a Constituição de 1946, a escola pública já era pensada não como um direito de todos e um dever do Estado, mas como um serviço apenas para os que não podem pagar uma escola privada.

Então pensem comigo: as pessoas que concentravam poder econômico ocupavam o poder público, pagavam educação privada para seus herdeiros e ainda por cima dirigiam (por estarem no Estado) a educação dos demais. Justo, né? Só que não.

Dirigindo o sistema educacional, o Estado e a economia, essas pessoas (que Marx chamaria bem bonitamente de burguesia e Bourdieu de classe dominante, simplificando um pouco o pensamento dos dois) se encarregaram de, além de excluir os demais cidadãos do poder público, excluí-los da formação política. Isso foi feito, em parte, instaurando ditaduras que cassavam o direito à manifestação e expressão política (a participação em movimentos organizados é uma fonte muito forte e fértil de educação política, sobretudo porque independe da educação formal), mas também excluindo a política das escolas.

Quer dizer, a pouca política que foi ensinada nos últimos 100 anos na maioria das escolas brasileiras (públicas e privadas, é bom lembrar, já que são ambas reguladas pelo mesmo Estado) é uma política conteudista e vazia, inaplicável ao cotidiano de cidadania. Saber o nome de todos os presidentes do Brasil não serve para muito. Ao contrário disso, a educação política para a cidadania passa por saber como funciona o Estado, de que direitos políticos dispõem os cidadãos, qual a diferença entre Estado e governo, o que é um partido, porque o sistema eleitoral brasileiro é partidário, como são distribuídos os votos no legislativo, como são financiadas as campanhas, e por aí vamos.

É disso que estamos falando quando usamos a palavra despolitização. Uma pessoa despolitizada não é uma pessoa incapaz, burra. É uma pessoa que não possui informação política nem formação política. Que não tem conhecimento sobre a política – ou seja, sobre como funciona a disputa pública de poder que orquestra tantas esferas de nossas vidas.

A educação política, portanto, não depende do grau de escolarização da pessoa. Esse é um mito fundamental de ser derrubado.

Essa ausência de educação política (que começou a ser revertida na Constituição de 1988, e continua com medidas como a aprovação do ensino obrigatório de sociologia, mesmo que não sejam suficientes) garantiu que mesmo com direitos políticos assegurados, a população em geral, de forma massiva, não se preocupasse nem desejasse se ocupar da política. Não é uma coincidência que só agora tanta gente esteja, pela primeira vez na vida, buscando informações sobre como funciona o Estado brasileiro. Essa espécie de “despertar”, da forma como está acontecendo [falamos jajá sobre ele], é fruto das decisões políticas que nos antecederam e das disputas que produziram a história do Brasil como ela é (alô, Marx! beijo!).

4. Quanto mais gente, menos corrupção

Então, retomando o que comentei nos pontos anteriores, notamos que: (i) o poder público é concentrado, salvo exceções, nas mãos de representantes de um grupo social que também detém o poder econômico no Brasil; (ii) que esse grupo social sempre teve o poder concentrado em suas mãos ao longo da história do Brasil; (iii) que esse poder concentrado facilitou decisões políticas que o mantinham concentrado, mantendo a população em geral afastada (mesmo que voluntariamente) da política. Uma consequência desse afastamento que não posso me furtar a comentar é a corrupção.

Sim, ela, a famosa, odiada, mal-compreendida, misteriosa corrupção.

Quando militantes de esquerda criticam a reivindicação “contra a corrupção”, o motivo em geral é simples de ser entendido: afinal de contas, quem raios é a favor da corrupção? A bandeira simplificada “contra a corrupção” não diz muita coisa sobre que projeto a pessoa em questão (ou grupo) defende para acabar com ela, ou reduzi-la.

Não quero entrar em detalhes no momento (pretendo escrever um texto exclusivamente sobre isso em breve), mas a corrupção é uma questão estrutural no Brasil e em inúmeros outros países. Ser estrutural quer dizer que é uma prática que não depende tanto de indivíduos específicos, e depende mais das ideias que esses indivíduos têm sobre o que é o Estado. Para sabermos que tipo de medida defendemos como sendo mais eficaz ou mais apropriada para esse “combate”, então, precisamos usar a informação política sobre o Estado brasileiro analisando algumas possíveis características que facilitam ou impulsionam essa prática que desejamos erradicar. Certo?

Pois bem. Acompanhem meu raciocínio aqui.
[*momento provinha-de-sociologia*]

1. Qual era a ideia de Estado que estava presente na formação da sociedade brasileira, quando consideramos quem tinha direitos políticos na época da primeira Constituição?
a) o Estado deve atender aos interesses de toda a população
b) o Estado deve atender aos interesses de uma pequena parte da população que concentra o poder econômico

[um doce para quem acertar, como digo aos meus alunos]

2. Qual era a ideia Estado que estava presente na Constituição de 1946, que dizia que a educação pública era uma espécie de “tapa-buracos” para quem não pudesse pagar a educação privada?
a) o Estado deve atender aos interesses de toda a população
b) o Estado deve atender aos interesses de uma pequena parte da população que concentra o poder econômico

[tá fácil? então vejam essa:]

3. Qual era a ideia de Estado que estava presente no processo de despolitização e afastamento da população em relação ao poder público?
a) o Estado deve atender aos interesses de toda a população
b) o Estado deve atender aos interesses de uma pequena parte da população que concentra o poder econômico

[e aí, foram bem? preciso dar o gabarito? 😉 ]

Quando o Estado visa atender aos interesses pessoais individuais ou apenas de um pequeno grupo de pessoas, em vez de se orientar pelos interesses, necessidades e direitos da população como um todo, temos um fermento forte para a corrupção. A corrupção nada mais é do que o uso do aparelho do Estado em benefício próprio. O Estado precisa servir a todos. A ideia de quem trabalha pra ele (sejam políticos, funcionários públicos, empresas licitadas e concessionárias, etc) de que ele deve ser usado em benefício próprio é a base, portanto, de toda corrupção.

Manter as pessoas longe da política, do Estado, do poder público, é uma ferramenta poderosa para manter esquemas de corrupção operando. Afinal de contas, se as pessoas deixam “a política aos políticos” e agem como se ela não lhes dissesse respeito, eles se sentem autorizados a governarem apenas para si mesmos. Ao mesmo tempo, com a população distante do Estado, outros atores sociais como funcionários públicos, empresas, empresários, etc. também se sentem mais seguros para envergar o aparelho do Estado em benefício próprio individual. Daí pra haver abuso do Estado em benefício próprio é um pulo.

Não foram o PT, o PSDB, ou qualquer partido atual que inventaram a corrupção. Ela é parte de uma ideia que está enraizada na nossa cultura sobre o que é e o que deve ser o Estado (Dom Pedro manda beijos). Sobre como lidar com o Estado. Sobre a quem o Estado deve servir.

5. Mas e o golpe?

Entender tudo isso sobre o Estado e a política no Brasil nos ajuda a entender, afinal de contas, o que é um “golpe”. Um “golpe” é uma manobra política para transferir poder de um grupo a outro. Um golpe de Estado transfere o poder público de mãos. Um golpe militar faz isso com a ocupação do poder público por militares. Ao contrário de algumas pessoas, eu não penso que nenhuma dessas duas coisas devem acontecer agora, embora não descarte que sejam possíveis. Explico.

Um golpe de Estado precisa necessariamente de um grupo de pessoas cujos interesses não estejam sendo atendidos pelo atual governo. Essas pessoas, que desejam ocupar o poder público para construir um projeto de sociedade diferente daquele que estiver em curso, promovem ou fomentam uma crise política. Com o atual governo fragilizado, aprovam medidas em caráter de “urgência” ou “emergência” destituindo-o. Foi o que aconteceu em 2012 com Fernando Lugo, presidente do Paraguai.

Um golpe militar é quando o grupo que quer destituir o governo em curso e segue os passos típicos de um golpe de Estado é composto por militares, ou faz isso por meio deles. Utilizando-se do poder excepcional que lhes é conferido pelo próprio Estado, as forças armadas ameaçam o chefe do executivo e o destituem de seu cargo. Qualquer semelhança desse uso do aparelho estatal em benefício próprio feito pelos golpes militares com o princípio ideológico que gera corrupção não é mera coincidência. Foi o que aconteceu em 1964 no Brasil, um dos períodos mais corruptos do Estado brasileiro (e nem sou eu que estou dizendo).

É fácil entender, então, a improbabilidade de estarmos diante de um golpe de Estado, seja ele militar ou não: os interesses daquela pequena “elite” que sempre dirigiu e comandou o Brasil continuam sendo atendidos. A presidenta se alinhou com a bancada ruralista, o PT deu espaço para os evangélicos na comissão de direitos humanos. Ambas as bancadas (evangélica e ruralista) representam interesses conservadores que se alinham com os interesses do grande empresariado e das corporações. Até mesmo a mais importante política social realizada nos últimos anos, o bolsa-família (do qual sou defensora ferrenha) está ligada aos mesmos interesses, pois forma mercado consumidor.

Um Estado de exceção como o que tivemos no regime militar tampouco parece adequado. No contexto internacional atual, em que o Brasil é uma economia muito respeitada, um país extremamente conhecido e popular, com bastante poder político, a instalação de uma ditadura muito provavelmente contraria os interesses de empresas, corporações, grandes empresários e organismos internacionais ligados à economia.

Quer dizer: se os militares forem o único setor da sociedade (seguido por alguns loucos no meio da população) que defendem a instalação de uma nova ditadura militar, é extremamente provável que eles não tenham sucesso. A ditadura se instalou em 1964 porque havia largo apoio da população, do empresariado, das empresas e organismos internacionais, e de países hegemônicos no cenário internacional. Na época, a economia do Brasil não era nem de longe o que é hoje, e o papel do Brasil na geopolítica era outro.

6. Então que tipo de “golpe” seria possível?

A partir daqui, procuro montar as peças mais recentes do quebra-cabeças. Tenho percebido uma certa tendência se desenhando e gostaria de compartilhá-la com vocês.

  • Como eu havia contado (e as centenas de relatos que recebi em privado após a publicação do texto me confirmaram), em meio ao fervor político das ruas, muitos atos de destruição, saques, etc. começaram a acontecer. Em vários momentos, de várias cidades, a população estranhou a inação da polícia ao ver esses atos, que parecem sempre totalmente dissociados de qualquer cunho político. As condições em que eles acontecem são extremamente suspeitas: – Em São Paulo, o trânisto na frente do Palácio dos Bandeirantes, na segunda-feira (17), foi totalmente evacuado. “Sobraram” misteriosamente alguns ônibus na rua, todos juntos (que em geral não passam por lá, muito menos tantos ao mesmo tempo, quem já frequentou o bairro sabe muito bem). Eles foram quebrados e depredados por algumas pessoas que pareciam não ter nenhum vínculo político com nenhum dos grupos na manifestação, enquanto a polícia (em número reduzidíssimo, inclusive para um dia normal no palácio) assistia. Relatos de outras cidades também falam em ônibus “abandonados” sem ninguém no trajeto das manifestações, horas antes de elas começarem. – No centro de São Paulo, no dia seguinte (18), o fogo no carro da Record, a equipe de reportagem fugindo e a PM assistindo. Relatos de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Fortaleza e diversas outras cidades chegaram até mim, contando situações muito semelhantes à que descrevi no meu texto anterior.
  • O discurso geral de censura a partidos políticos começou a se fortalecer. Na quinta-feira (20), manifestantes de partidos políticos foram violentamente agredidos em várias cidades do país (tive relatos diretos de São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas), por manifestantes nacionalistas durante os protestos. Muitos foram gravemente feridos. Na Avenida Paulista, qualquer pessoa vestindo vermelho, que estivesse na rua, era atacada.
  • Na mesma madrugada dos ataques a partidos, a Rede Globo passou uma reportagem em seu canal GloboNews, dizendo que “o movimento apartidário venceu”, e falando contra o que chamou de “formas tradicionais de se fazer política” [como partidos, organizações sindicais, etc]. Vale lembrar que o apartidarismo que a Globo disse que apoia é diferente do anti-partidarismo que aconteceu nas ruas e que ela estava apoiando (ao não denunciar, por exemplo).
  • Na manhã seguinte (21), em plenário, o senador do PDT-DF Cristóvam Buarque defende a extinção de todos os partidos políticos brasileiros. A quem não sabe, vale lembrar que essa era uma das defesas do fascismo, e uma das marcas do autoritarismo de Getúlio Vargas e, depois, dos militares – a proibição de partidos e organizações políticas.
  • Na hora do almoço, uma reportagem no Jornal Hoje da Rede Globo frisava com entrevistas, edição e narração, que as pessoas que estavam saqueando, quebrando patrimônio, etc. “eram organizadas” (usando essas palavras).
  • Está para ser votada no Senado uma lei que define os crimes de terrorismo no Brasil. Um dos maiores impasses no texto (e que deve voltar à tona durante a votação) é a inclusão ou não de movimentos sociais e manifestações políticas como atos terroristas (leia aqui).

Considerando essa sequência de fatos, eu vejo se desenhar um golpe midiático para que a opinião pública aceite e defenda a diminuição de direitos políticos. Me parece que a tentativa é de criminalizar movimentos sociais organizados e outras organizações políticas. Mas pode ser também que haja outras coisas na jogada. Ainda não dá pra saber.

Eu continuo esperando estar louca.

Oito dicas pra não pagar mico em tempos de manifestações Enviado por luisnassif, sab, 22/06/2013 – 09:19 Por Sidney Braga Oito dicas pra não pagar mico em tempos de Manifestações:

1- Não compartilhe o vídeo dos atores da Globo contra Belo Monte. Esse vídeo de 2011 está cheio de informações falsas. Inclusive alguns atores que gravaram o vídeo se arrependeram depois de descobrir que o que eles disseram não era bem assim.
2- Não diga que foram gastos 30 bilhões em estádios. Na verdade, foram gastos 7 bilhões, que é coisa pra caramba. Desses 7 bilhões, grande parte é emprestado pelo governo federal, mas a maior fatia será paga pela iniciativa privada. Os outros 23 bilhões foram investimentos em infraestrutura, transporte e aeroportos. Inclusive, o investimento em transporte é uma das reivindicações dos protestos.

3- Nunca peça pro governo gastar com saúde o mesmo que se gastou com estádio de futebol. Nos 7 anos de preparação para a Copa, foram gastos aproximadamente 7 bilhões com estádios. Neste mesmo período, foram gastos mais de 500 bilhões com saúde. Então se vc fizer isso, na prática vc ta pedindo pra reduzir consideravelmente os gastos com saúde. Gastos com saúde nunca são demais. Então cuidado pra não pedir a coisa errada.

4- Não peça um presidente pra garantir que algum político seja preso. Isso é papel do poder Judiciário. O manifesto deve ser endereçado a este poder.

5- Não peça um presidente pra impedir a votação de uma lei ou PEC. Isso é prerrogativa do Congresso. O manifesto deve ser endereçado aos parlamentares.

6- Não peça um presidente pra cassar o mandato de algum deputado ou senador. Isso é papel das casas legislativas. Está escrito no artigo 55 da Constituição Federal.

7- Nunca peça pra fechar o Congresso e acabar com os partidos. O último presidente que fez isso foi um Marechal. Tal ato aconteceu em 1968 e foi nada menos do que o temido AI-5 da ditadura.

8- Não compartilhe aquelas informações falsas sobre o auxílio reclusão. O auxílio reclusão é um benefício pago à família do detento que contribuiu com o INSS, logo ele está recebendo um valor pelo qual já pagou anteriormente. O detento deve ser punido, não sua família.

Nota pública dos estudantes brasileiros em Paris que cancelaram o ato de sábado 22 de junho

junho 23rd, 2013 by mariafro

NOTA PÚBLICA

22/06/2013

Os acontecimentos do Brasil começaram com teor bastante claro há 3 semanas, com reivindicações pautadas pelo Movimento do Passe Livre exigindo revogação do aumento das passagens dos transportes coletivos. Multidões tomaram as ruas em torno dessa pauta com uma força sem precedentes nos últimos 20 anos. Nesse contexto, houve uma criminalização do movimento por parte da grande imprensa que legitimou a ação desproporcional da polícia. Naquele momento, nós organizadores, enquanto estudantes brasileiros residentes em Paris, resolvemos convocar um ato, previsto para sábado dia 22, em solidariedade para com aquele movimento, para com suas reivindicações e contra a violência da polícia.

Na última semana, a natureza dos acontecimentos, entretanto, mudou. Tomando embalo na força popular mobilizada então, a grande imprensa e a direita brasileira passaram a apoiar as manifestações, visando diluir seu conteúdo e assim impor a elas sua pauta conservadora. Desde então, passamos a ver o aumento de discursos reacionários e a proliferação de posturas fascistas tomando as ruas das cidades. Nessa mesma esteira, um anti-partidarismo difuso e raivoso passou a incitar a violência levando alguns grupos autoritários a se sentirem confortáveis em agredir membros de organizações da esquerda que sempre construíram as grandes manifestações no Brasil.

Sabemos que grande parte das pessoas nas ruas não compactuam com esse comportamento, mas, lamentavelmente, houve consentimento desinformado por certa parte delas. Tal situação coloca em risco o direito à livre manifestação e livre organização política conquistados com luta histórica encabeçada pela esquerda que quinta-feira, dia 20, foi espancada nas ruas.

Certa mídia se aproveita desses acontecimentos, pintando-os como uma batalha pela desestabilização do governo. É sem dúvida essa a posição da direita. Nós também, mas por motivos completamente diversos, temos críticas a fazer às esferas federal, estaduais e municipais do governo, inclusive no que toca o modo pelo qual conduziram a negociação com o Passe Livre. Nós nos indignamos com a maneira tecnocrata de lidar com as reivindicações populares, e lamentamos o governo federal ter abandonado o diálogo com os movimento de base dos quais seu partido nasceu. Porém temos clareza que em momento nenhum pretendeu-se – nós não pretendemos – fazer dos protestos uma marcha pela deposição de governantes democraticamente eleitos, por mais críticos que sejamos a eles.

É preciso comemorar, sem dúvida, a conquista que o Passe Livre obteve nas ruas, assim como o fato de que as mobilizações tenham feito valer sua vontade perante as esferas representativas do poder. As manifestações conseguiram colocar em debate o que significa um estado efetivamente democrático, assim como sensibilizar parte da população de que é a participação política direta que traz conquistas.

O que acontece hoje em nosso país é algo muito importante cujo sentido, porém, permanece indeterminado. A organização deste ato não compactua com o rumo que a grande imprensa e a direita têm tentado impor às mobilizações nas ruas em curso no país. Seguiremos mobilizados pela transformação social no Brasil e em defesa das pautas históricas dos movimentos sociais.

Erdogan diz que mesma conspiração atua na Turquia e no Brasil

publicado em 22 de junho de 2013 às 21:13

Anônimos pautam milhares. E quem pauta os Anônimos?

22/06/2013 – 15h38 | Redação | São Paulo

Erdogan: Brasil e Turquia são alvo de conspiração internacional

Premiê turco afirmou que os dois países — duas potências emergentes — sofrem tentativa de desestabilização vinda de fora

do Opera Mundi

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que enfrenta uma onda de manifestações em seu país, afirmou neste sábado (22/06) que os protestos registrados nos últimos dias no Brasil fazem parte uma conspiração para desestabilizar a presidente Dilma Rousseff, assim como estaria acontecendo com ele próprio.

Erdogan falava a centenas de milhares de simpatizantes na cidade de Samsun, uma das paradas de uma jornada de mobilizações em apoio a ele. Há três semanas, protestos contra a construção de um centro comercial da Praça Taksim de Istambul foram violentamente reprimidos pela polícia. A repressão impulsionou as manifestações, onde palavras de ordem contra Erdogan e pela sua saída do governo são frequentes.

Situação semelhante aconteceu no Brasil, quando a repressão da Polícia Militar do Estado de São Paulo nas quatro primeiras manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus (responsabilidade da prefeitura), metrô e trem (responsabilidade do governo do estado) – especialmente em 14 de junho, pela violência e agressão contra jornalistas – chocou o país.

Antes apoiada pelos principais jornais, a ação da polícia gerou uma onda de protestos, que acabaram absorvendo outras pautas, como corrupção, inflação, insegurança, algumas incluídas em um rechaço à realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

A violência registrada nas manifestações seguintes – quinta-feira (20/06) na cidade de São Paulo houve agressão contra militantes de partidos de esquerda – foi condenada nesta sexta-feira (21/06) por Dilma, que se dispôs a receber os manifestantes e propôs um pacto para buscar atingir as demandas dos que protestaram.

Assim como Dilma, que lidera um país com altos níveis de crescimento econômico e social, Erdogan tem alta aprovação após 10 anos de governo. Para ele, os protestos são alimentados por forças estrangeiras, banqueiros e a mídia turca. Em Samsun, o premiê disse que o Brasil – outra economia emergente – foi alvo da mesma tentativa de desestabilização.

“O mesmo jogo está sendo jogado no Brasil. Os símbolos são os mesmos, Twitter, Facebook, são os mesmos, a mídia internacional é a mesma. Os protestos estão sendo levados ao mesmo centro”, analisou Erdogan. “Eles estão fazendo o máximo possível para conseguir no Brasil o que não conseguiram aqui. É o mesmo jogo, a mesma armadilha, o mesmo objetivo”.

Acordei e estou com saudades do Enéas!

Eu vou colar na manifestação do PASSE LIVRE para:

( ) Pedir um transporte público de qualidade para todos

( ) Pedir o impeacHment da geral

( ) Protestar contra o mensalão

( ) Tornar o custo do carro mais barato, assim podemos ter mais e mais carros nas ruas

via

Acordei e quero meu kit manifestação!

Querido,

Beijo e volta a dormir =*

Opa, olha quem está ligeiro!

(Enviado pelo Ramon)

Tava demorando para isso acontecer…<br /><br /><br /><br /><br /> (Andreia, Vinicius, Rafael, Anderson e Fabio - valeu pelas fotos!) Tava demorando para isso acontecer…<br /><br /><br /><br /><br /> (Andreia, Vinicius, Rafael, Anderson e Fabio - valeu pelas fotos!)

Tava demorando para isso acontecer…

(Andreia, Vinicius, Rafael, Anderson e Fabio – valeu pelas fotos!)

Por uma manifestação mais redonda!

image

( contribuição do @RafaRolimR)

To gata? #partiurevolução

(dica de Jrdn)

Camarote da Brahma? Não! Mais um dia de protesto!

Ai, que loucura! Ai, que revolução!

(dica de Ehg)

Transgressão e sexismo. Bacana…</p><br /><br /><br /><br /> <p>(sugestão de @congafury)

Transgressão e sexismo. Bacana…

(sugestão de @congafury)

Q

fegavronski asked:seu bando de lixo, por causa de lixos como vocês que o brasil ainda não é um país decente

A

você é reaça e burro ou apenas burro mesmo?

Que o Brasil é isso, protestar sem protestar, de verde e amarelo, com sorrisos e tambores! E sai pra lá esquerda que quer organizar as minorias!

#VOLTAADOMIRBRASIL

(dica de @howdreamsareprepared)

Se existe bolsa familia pra uns, por que euzinha não posso ter a minha louis vuitton?

E o MPL virou o novo Judas!  E o MPL virou o novo Judas! 

E o MPL virou o novo Judas! ]

Por que não participo das manifestações

Publicado 21/06/2013 r Uncategorized 17 Comentários

Em alguns momentos da história, algo explode e você tem três opções: ficar quieto, apoiar um movimento ou ir contra um movimento. E aí, qualquer das escolhas, inclusive a de ficar quieto, pode ser um erro tremendo. Mas você não tem muito tempo pra pensar, tem que escolher. Juntar tudo que sabe, unir com sua intuição, usar o que tem de capacidade de análise e decidir. Hoje, eu decido NÃO me juntar aos protestos que tomam conta do Brasil e me colocar CONTRA eles. Não saio às ruas, não porque prefiro me omitir ou por estar em dúvida. Não saio por achar que as atuais manifestações são mais nocivas que benéficas.

Sei que pessoas que compartilham alguns ideais comigo estão indo aos protestos. Tenho, por exemplo, especial vontade de ver o projeto da “cura gay” ser derrotado no Congresso. Estou estudando psicologia. Além de músico e jornalista, serei um psicólogo daqui a alguns anos. Me sinto revoltado ao ver uma proposta assim ser aceita logo na Comissão de Direitos Humanos, um espaço tão importante quanto simbólico. Que vergonha para o Brasil, que vergonha… Ontem, 20 de junho, vi que uma passeata contra o projeto estava sendo organizada em Brasília. Fosse só essa a manifestação, eu estaria lá. Mas não era só isso. Havia outras “causas” sendo defendidas. Outras com as quais concordo, outras que repudio. Por isso, nem pensei em me juntar à manifestação.

Honestamente, não quero desfilar pelas ruas ao lado de quem leva uma faixa defendendo a “intervenção militar”. Nem de quem pede o impeachment de uma presidente contra a qual não há nenhuma acusação e que, depois de eleita democraticamente (numa democracia que nos custou vidas e sangue para reconquistar), tem mais de 70% de aprovação. Nem de gente que não consegue ir além do discurso “tá tudo errado”, “sou contra a corrupção”, “político é tudo igual”, “quero distância da política”. Na boa? É que nem achar que não tem nada de estranho simpatizantes dos Panteras Negras e da Ku Klux Klan participarem do mesmo ato, afinal, basta que cada um leve a sua faixa e deixe o outro em paz, pois todos “estão insatisfeitos”, “estão cansados”, “têm do que reclamar”.

Falta de foco

Há quem diga que as críticas sobre a falta de foco do movimento não procedem. Que esses críticos não entendem que a causa é “a cidadania”, o “desejo por mais direitos”, a “vontade de ter serviços públicos de qualidade”. OK, quem em sã consciência pode ser contra tais “bandeiras”? Obviamente ninguém, e,  por isso, talvez, tanta gente se sinta logo convencida a participar. Mas o problema da falta de foco é a possibilidade de leituras que um movimento tão multifacetado permite.

Eu posso dizer qualquer das coisas a seguir sem medo de errar – e sem chance de acertar também: “Os manifestantes estão indignados com a influência cada vez maior da bancada evangélica no Congresso”; “os manifestantes acham o PT muito corrupto”; “os manifestantes querem o impeachment de Dilma”; “os manifestantes querem mesmo é transporte público mais barato”; “os manifestantes não aguentam mais a hipocrisia política e querem que o mensalão do PSDB seja julgado da mesma forma como foi o do PT”; “os manifestantes estão preocupados com a inflação”; “os manifestantes acham o Bolsa Família uma esmola que deve acabar”; “os manifestantes querem que os gastos com os programas sociais aumentem em vez de serem usados em estádios”; “os manifestantes apoiam o governo Dilma de maneira geral, mas acham que ele errou em alguns pontos recentemente”; “os manifestantes acham que todo partido é igual e a política deveria acabar; “os manifestantes respeitam muito as instituições democráticas e só querem dar um recado de insatisfação aos políticos”; “os manifestantes pensam que na época da ditadura era melhor” etc etc etc.

Estou errado? Não há blocos de manifestantes que se encaixam em cada uma dessas definições? Então estou certo. Mas há alguma dessas definições que descreva, com certeza, a totalidade dos manifestantes? Então estou errado. Ah, mas os protestos estão acima dessas questões. É um movimento apartidário, apolítico, consensual, argumentaria alguém. Não duvido das boas intenções desse alguém, mas duvido das intenções de quem, depois (ou agora mesmo), vai pegar só uma parte daquelas definições ali em cima para rotular o movimento. E aí, algum dia, vai ter muito Pantera Negra se vendo no vídeo das manifestações enquanto o partido da Ku Klux Klan mostra as imagens dizendo que levou milhares às ruas para defender a supremacia branca.

Honestamente? Não acho que foi à toa que algumas “pessoas” mudaram de opinião com relação às manifestações. Elas viram uma chance muito boa de usá-las politicamente, agora e em breve. Ah, eu falo isso porque me simpatizo com o governo Dilma e estou preocupado? Sim, estou preocupado. Mas não porque, no caldo, sobram críticas ao governo. Votei em Dilma e tenho minhas críticas a ela. O excesso de pragmatismo que dá poder a Felicianos me incomoda, a forma como se tratou a questão indígena recentemente me incomoda. Mas também acho que o governo que aí está tem muitos acertos e, principalmente, foi eleito e é apoiado pela maioria das pessoas. Não se pode achar normal um movimento que permite discursos golpistas e antidemocráticos, mas não aceita uma bandeira de partido político. Golpista pode, militante não? Gente, DEMOCRACIA, valor com o qual não se brinca! Claro que as pessoas podem se manifestar. Incomodar a presidente não está proibido. Mas não farei isso me juntando a gente que defende seu impeachment ou que se simpatiza com a ditadura militar ou que, hipocritamente, dá corda a discurso “apartidário” para lá na frente dizer que “estão todos contra o governo”. Esses que marchem com os seus. Prefiro uma marcha contra Feliciano de duas pessoas que saibam por que estão ali.

“Ah, você exagera, Beto. Todo mundo sabe que esses doidos golpistas são minoria. A maioria é do bem, não aceita a entrada de política no jogo.” Adoraria ter esse otimismo. Mas, pra mim, do jeito que a coisa evoluiu nas manifestações recentes, não dá mais pra acreditar que você pode garantir um movimento “apartidário”, “apolítico”, porque o uso dele será (está sendo) muito político, independentemente do que os manifestantes pensem individualmente. Se você não se importa com isso, vá pra rua. Dê volume ao que não tem forma e jogue com a sorte pra ver qual será o resultado.

Manifestações legítimas

Ressalto aqui que, na minha opinião, as manifestações surgiram de forma espontânea e legítima. Reconheço que deu mesmo vontade de me juntar a elas quando vi a polícia espancando estudantes que tinham uma reivindicação legítima. Pensei, imagino, como muita gente pensou: “Como assim? A passagem fica mais cara, os estudantes resolvem exercer o direito de dizer que não concordam e são espancados?” Não à toa, na passeata seguinte, tinha mais gente. E aí, de novo, cacete no pessoal? E cenas de arbitrariedade se repetem, inclusive em outras cidades, e gente é presa por portar vinagre? Normal que pensemos: “Ah, é assim? Vamos pra rua!”

E centenas de milhares foram pra rua, de forma legítima e espontânea. Muitos continuam nas ruas com a melhor das intenções. Mas é preciso entender que, apenas agir, não é suficiente. Vi amigos jovens dizendo: agora que saímos do Facebbok e estamos fazendo algo, reclamam que falta foco? Desculpem, mas reclamo sim. A participação política (que não precisa de partido) é linda, empolgante, mas muito trabalhosa. Exige reflexão, exige confronto com os próprios fantasmas, exige a tarefa penosa de reavaliar nossas posições (por mais que fira o ego). Exige conhecimento da história (discursos moralizantes, contra todos os partidos e políticos, sem pauta definida, só levaram a cenários horríveis). O protesto é a parte menor da participação política. Ir para a rua é parte do gesto político, mas não é o gesto completo.

A história acontece agora, e eu me posiciono assim. Sinceramente? Não seria nada ruim se o tempo mostrasse que minha escolha foi errada. Que li errado o momento, e que o Brasil ficou melhor depois disso tudo. Se minha visão mudar adiante, me posicionarei de forma diferente, humildemente.

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DAQUI PARA BAIXO SÃO AS POESIAS QUE IRIAMOS MONTAR (POETAS MALDITOS)

circum-lóquio (pur troppo non allegro) sobre o neoliberalismo terceiro-mundista   – Haroldo de Campos*

laisser faire laisser passer
1.
o neoliberal neolibera: de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Não conheço melhor definição da palavra arte que esta: “a arte é o homem acrescentado a natureza”, a natureza, a realidade, a verdade, mas com um significado, com uma concepção, com um caráter, que o artista ressalta, e sos quais dá expressão, “resgata” distingue, liberta, ilumina.

BAUDELAIRE

Ao Leitor ( TOM PROFÉTICO)

FICARA MUITO CONTENTE SE DE ALGUMA MANEIRA, VOCE PUDESSER VER EM MIM MAIS QUE UM VAGABUNDO

Sempre tolice e erro, culpa e mesquinhez
trabalham nosso corpo e ocupam nosso ser,

E aos remorsos gentis, nós damos de comer

Como o mendigo nutre a sua sordidez.

Frouxo é o arrependimento e tenaz o pecado,

Por nossas confissões muito é o que a alma reclama,

Voltando com prazer a um caminho de lama,

Crendo lavar as manchas com pranto amaldiçoado.

Junto ao berço do Mal é Satã Trismegisto,

A nossa alma a ninar, tão longamente invade,

Do precioso metal desta nossa vontade

Este alquimista faz um vapor imprevisto.

É o Diabo que nos move através de cordéis!

O objeto repugnante é o que mais nos agrada;

E do inferno a descer sempre um degrau da escada,

Vamos à noite errar por sentinas cruéis.

Tal como um libertino que beija e mastiga

O seio enrugado de velha vadia,

Furtamos ao acaso uma oculta alegria

Que esprememos assim como laranja antiga.

Espesso, a formigar como um milhão de helmintos,

Ceva-se em nossa fronte um povo de avejões,

E quando respiramos, a Morte nos pulmões

Desce, invisível rio e com sons indistintos.

E se o estupro, o veneno, o incêndio e a punhalada,

Não puderam bordar com seus curiosos planos

A trama banal vã dos destinos humanos,

É que nossa alma enfim não é bastante ousada.

No entanto entre lebéus, panteras e chacais,

Macacos e escorpiões, abutres e serpentes,

Os monstros a grunhir,ladrantes ou gementes,

Que são o nosso vício em infames currais,

Um existe mais feio e mais perverso e imundo!

Embora não se expanda em gestos ou em gritos,

De bom grado faria da terra só detritos

E num simples bocejo engoliria o mundo.

É o tédio! – os olhos seus que a chorar sempre estão,

Fumando seu cachimbo, sonha com o cadafalso.

Tu o conheces, por certo, o frágil monstro, ó falso

Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Abel e Caim (CENA PARA OS FANTOCHES NA CARROÇA) DOIS FANTOCHES UM ESFARAPADO OU MEIO QUE NORTE AMERICANO

BONECO 1 ABEL, BONECO 2 CAIN

Raça de Abel, só bebe e come,

Deus te sorri tão complacente.

Raça de Caim, sempre some

No lodo miseravelmente.

Raça de Abel, teu sacrifício

Doce é ao nariz do Serafim!

Raça de Caim, teu suplício

Será que jamais terá fim?

Raça de Abel, tuas sementes

E teu gado produzirão;

Raça de Caim, sempre sentes

Uivar-te a fome como um cão.

Raça de Abel, não tremas nunca

À lareira patriarcal;

Raça de Caim, na espelunca,

Treme de frio, atroz chacal!

Raça de Abel, pulula! Ama!

Teu oiro é sempre gerador.

Raça de Caim, alma em flama,

Cuidado com o teu amor.

Raça de Abel multiplicada

Como a legião dos percevejos!

Raça de Caim, pela estrada

Arrasta a família aos arquejos.

II

Raça de Abel apodrecida

Há de adubar o solo ardente!

Raça de Caim, tua lida

Nunca te será suficiente;

Raça de Abel, eis teu labéu:

Do ferro o chuço é vencedor!

Raça de Caim, sobe ao céu

E arremessa à terra o Senhor!

TODOS OS FANTASMAS

A MORTE DOS POBRES

BAUDELAIRE

POEMA DITO NA PORTA DE SAÍDA DO PORÃO FECHANDO AS GRADES

Vivemos pela morte e só ela é que afaga;

É a única esperança, e o mais alto prazer,

Que como um elixir nos transporta e embriaga,

E nos faz caminhar até o anoitecer.

Ela é a glória de Deus e a bolsa do mendigo,

É o místico celeiro e mais o lar antigo,

Pórtico que se abriu para os céus mais ignotos.

FIICARA MUITO CONTENTE SE DE ALGUMA MANEIRA, VOCE PUDESSER VER EM MIM MAIS QUE UM VAGABUNDO

MONOLOGO DE UMA SOMBRA AUGUSTO DOS ANJOS

SALA DO MEIO

MARCA DE UM CORPO FEITO A GIZ NO CHÃO,

E o que ele foi: clavículas, abdômen,

O coração, a boca, em síntese, o Homem,

— Engrenagem de vísceras vulgares —

Os dedos carregados de peçonha,

Tudo coube na lógica medonha

Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos

Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos

Dentro daquela massa que o húmus come,

Numa glutoneria hedionda, brincam,

Como as cadelas que as dentuças trincam

No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!

ECCCCO

É O DESPERTAR DE UM POVO SUBTERRANEO

ANFITRIÃ – MESCLADO AO FINAL DO BAUDELAIRE

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

A condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento

Pelas grandes razões do sentimento,

Sem os métodos da abstrusa ciência fria

E os trovões gritadores da dialética,

Que a mais alta expressão da dor estética

Consiste essencialmente na alegria. (AUGUSTO DOS ANJOS mONOLOGO)

Não conheço melhor definição da palavra arte que esta: “a arte é o homem acrescentado a natureza”, a natureza, a realidade, a verdade, mas com um significado, com uma concepção, com um caráter, que o artista ressalta, e sos quais dá expressão, “resgata” distingue, liberta, ilumina.

VINCENT VAN GOGH

O NORMAL – LENDO NO ESPAÇO DO CAFÉ

EPÍGRAFE PARAUM LIVRO CONDENADO (BAUDELAIRE)

LEITOR PASSÍFICO E BUCÓLICO, HOMEM DE BEM E CRENTE NO DESTINO, JOGA ESTE LIVRO SATURNINO, LIVRO ORGÍACO E MELANCÓLICO. SE O CURSO NÃO FIZESTE UM DIA COM O SATANÁS, O ESPERTO DECANO, IRIAS LER ME POR ENGANO, COMO ALGUM CASO DE ESTERIA. MAS SE, SEM DEIXAR TE ENCANTAR, DEVER DESCER AOS ABISMOS, LE ME, QUE O POEMA IRÁS AMAR. ALMA CURIOSA, EM PAROXISMOS, TEM PENA, SE BUSCAS PARAISO. SENÃO EU TE ANATEMATIZO.

Alegria de Criança

CRIANÇA PEDINTE CIRCULANDO PELO LOCAL

William Blake

“Não tenho nome:

Só tenho dois dias.”

Como te chamarei?

“Sou feliz,

Alegria é meu nome.”

Doce alegria te ocorra!

Linda alegria!

Linda alegria de só dois dias,

Te chamo doce alegria:

Tu sorris,

Eu canto entretanto

Doce alegria te ocorra!

Provérbios do inferno

CRIANÇA BRINCANDO COM O LIXO SACO DE LIXO LATINHA DE COCA COLA

William Blake «

Uma vez avistei um Demônio numa língua de fogo,

que se elevou até um Anjo assentado numa nuvem .

E o Demônio proferiu estas palavras:

“A adoração de Deus não consiste em honrar os seus dons em outros

homens, segundo a genialidade de cada um , dedicando-se maior amor aos

maiores homens. Os que invejam ou caluniam os grandes homens odeiam a

Deus , pois não existe outro Deus.”

O Anjo, ao ouvir isto, tornou -se quase azul , mas, recompondo-se ,

ficou amarelo e, por fim, branco e rosa, e, então, sorridente , respondeu:

“Idólatra! Deus não é único? E não é visível em cristo? E não são

todos os outros homens loucos, pecadores e nulidades?”

Retrucou o Demônio:

“Tritura um imbecil numa argamassa com trigo, e

mesmo assim a sua imbecilidade não será expelida. Se Cristo é o maior

dos homens, deverias dedicar -lhe o máximo amor. Ouve agora, como ele

sancionou a lei dos dez mandamentos: não desprezou ele o sábado,

desprezando assim o Deus do sábado? Não matou os que foram mortos por

sua causa? Não desviou a lei da mulher apanhada em adultério? Não

roubou o trabalho dos outros para que o sustentassem? Não deu falso

testemunho ao omitir sua defesa perante Pilatos? Não cobiçou quando

orou por seus discípulos e lhes pediu que sacudissem o pó de suas

sandálias diante dos que se negavam a recebê-los? Pois eu te digo:

nenhuma virtude pode existir sem a quebra desses dez mandamentos.

Cristo era todo virtude e agia por impulso, não por regras.”

Depois que ele assim havia falado, eis que o Anjo, estendendo os braços

e enlaçando a língua de fogo, foi consumido e ascendeu como Elias.

PREGADOR ( REDICUTIR )

Alguém que. tenha assistido,. mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha presta­do atenção às coisas que seus próprios olhos vêem e que seus ouvi­dos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em :

suas obras-primas, e encontrará Deus nelas.

Fulano que andou agitado como. se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino; um outro que parecia nãovaler nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista,

Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um. pou­co sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador . L às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue.

ECCCO

ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.

A MULHER E O GATO

Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que , existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninha­da”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado.” No entanto o prisioneiro vive, e na’o morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu ínti­mo, ele está bem, está ~ais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas”, dizem às crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso”, “estou preso e não me falta nada, imbecis.” “Tenho tudo o que preciso.” ­”Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como outros.”

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo.. .

E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer

algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito

horrível. Alem disso, as vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha.

Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os responsáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado- e por que durante tantos anos estive deslocado- é simplesmente porque tenho idéias diferentes desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir.

CRIANÇA

“Você talvez jamais pensou no que é a pátria”, retomou ele pousando uma mão em meu ombro, “é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas arvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria”. “As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra e esta palavra será a pátria”.

MATUREZA (TORNEIRA E PROJEÇÃO

FRENTE A NATUREZA, NÃO ME SINTO MAIS IMPOTENTE COMO OUTRORA. MAS A NATUREZA É CERTAMENTE “INTANGÍVEL”, É PRECISO CONTUDO ATACÁ-LA E COM MÃO FIRME. E APOS TER LUTADO E COMBATIDO APÓS ALGUM TEMPO COM A NATUREZA ESTA ACABA POR CEDER E TORNAR-SE DÓCIL.

VAN GOGH

” Gostaria muito de lhe escrever sobre uma porção de coisas, mas sei de sua inutilidade …

” Os outros pintores, seja qual for o seu pensamento sobre isto, se mantém à distância das discussões sobre o comércio atual. E então, na verdade, só temos os nossos quadros para falar por nós. No entanto querido irmão, há isto que sempre lhe disse e torno a dizer uma vez mais com toda a gravidade que podem proporcionar os esforços de um pensamento continuamente determinado para procurar fazer o que se quer da melhor maneira possível – digo-lhe mais uma vez que sempre acharei que você é mais que um simples marchand de Corot que através de mim você participa da produção de algumas telas, as quais, mesmo na derrocada, conservam uma certa calma … Num momento dm crise relativa, num momento em que as coisas se encontram tão tensas entre marchands de artista mortos e vivos, é isso, em meu trabalho arrisco a minha vida e minha razão está perdida – bom – mas vice não faz parte dos marchands de homens, que eu saiba, e pode tomar partido, creio, agindo realmente com humanidade, mas que você quer !”

Sua última carta ao irmão Théo-.

CONVERSA SOBRE POESIA COM O FISCAL DE RENDAS
(de Vladimir Maiakósvki; tradução de Augusto de Campos)

Cidadão fiscal de rendas!
Desculpe a liberdade.
Obrigado…
Não se incomode…
Estou à vontade.
A matéria
que me traz
é algo extraordinária:
o lugar do
poeta
na sociedade proletária.
Ao lado
dos donos
de terras e vendas
estou também
citado
por débitos fiscais.
Você me exige
500 rublos

por 6 meses e mais
25 por falta
de declaração de rendas.
O meu trabalho
a todo
outro trabalho
é igual.
Veja só

quantas perdas de vulto,
que despesas
requerem
meus produtos
e quantos gastos
com material.
Você conhece
por certo
o fenômeno “rima”:
suponha
que uma linha
finde na palavra “pai”

e que ao fim da
outra linha,
menos uma,
se imprima
por exemplo
a palavra
“lampaipapai”.
Em linguagem de fisco
a rima
é uma letra a termo fixo
para desconto
ao fim da linha
sem mais prazos.

E sai-se à caça
da minúcia
de flexão ou sufixo
na caixa escassa
das conjugações
e casos.
Tenta-se pôr
essa palavra
numa linha
mas ela não cabe,
força-se
e ela se esfarinha.
Cidadão fiscal de rendas,

eu lhe juro,
as palavras custam
ao poeta
um duro juro.
Para nós,
a rima
é um barril.
Barril de dinamite.
O verso, um estopim.
A linha se incendeia
e quando chega ao fim
explode
e a cidade em estrofe

voa em mil.
Onde encontrar
e a que tarifa
uma rima que mire
e mate de uma vez? Dela
talvez
ainda sobrevivam
cinco exemplares
nos confins
da Venezuela.
E tenho que enfrentar
pólos e saaras,

e me lanço
entre dívidas
e vales dividido.
Cidadão,
condescenda,
as passagens são caras!
A poesia
– toda –
é uma viagem ao desconhecido.
A poesia
é como a lavra
do rádio,
um ano para cada grama.

Para extrair
uma palavra,
milhões de toneladas de palavras-prima.
Porém
que flama
de uma tal palavra emana
perto
das brasas
da palavra-bruta.
Essas palavras
põem em luta
milhões de corações

por milhares de anos.
Por certo
há poetas
de diversas classes.
Quanto vates
têm dedos ágeis!
Vertem versos
da boca
como mágicos,
tanto deles
como dos clássicos.
E que dizer
dos líricos castrados?!

Furtam
linhas alheias
e se fartam –
tipo
de peculato
dos mais alastrados
neste país, entre outros peculatos.
Esses
versos e odes
que os simplórios
aplaudem hoje
com soluços e confetes
passarão
à história
como os gastos acessórios
da obra
que fizemos,
dois ou três poetas.
Come,
como se diz,
quilos de sal,
maços
e maços
de cigarros consome
para extrair
a palavra essencial
das profundezas

artesianas do homem.
E de repente
o imposto
já não é tão caro.
Tire
a roda de um zero
do total!
Um rublo e noventa
custam os cigarros,
Um e sessenta,
o quilo de sal.
No questionário
há um monte de quesitos:

“O Sr. fez viagens?
Sim ou não?”
Mas como,
se eu fiz vôos infinitos
em dezenas de pégasos
nestes 15 anos?!
E agora
– ponha-se no meu lugar –
nesta coluna
há algo
sobre criados
e fortuna.

Mas como,
se sou dirigente
e servidor
também
de toda a gente?
A classe
fala
pela nossas palavras.
Nós somos
proletários
e motores da pena.
A máquina
da alma
com os anos se trava,

e dizem:
– Ao arquivo!
Acabou-se.
Um de menos!
Menos amor,
cada vez menos ações,
e o tempo
na corrida
minhas têmporas esmaga.
E vem
a mais terrível
das amortizações.
a de almas e corações

– última paga.
E quando
este sol
cevado como um porco
se erguer
sobre um porvir
sem mutilados nem mendigos

estarei
podre e morto,
de borco,
junto
de uma dezena
de colegas.
Façam

o meu balanço
a posteriori!
Mas eu afirmo
(e sei
que meu verso não mente):
no meio
dos atuais
traficantes e finórios
eu estarei
– sozinho! –
devedor insolvente.

A nossa dívida
é uivar
com o verso,
entre a névoa burguesa,
boca brônzea de sirene.
O poeta
é o eterno
devedor do universo
e paga
em dor
porcentagens
de pena.

Eu
estou em dívida

com os lampiões da Broadway,
com o Exército Vermelho,
com vocês,
céus de Bagdádi,
as cerejeiras do Japão
e toda a infinidade
a que eu não pude dar
a sobra de uma ode.
Mas para que
afinal
estas molduras são?

Para que fazer
da rima, mira
e do ritmo, chibata?
A palavra do poeta
é a tua ressurreição,
a tua imortalidade,
cidadão burocrata.
Daqui a séculos,
do papel mudo
toma um verso
e o tempo ressuscita.

E volverá
este dia,
seus fiscais de tributos,
a miragem dos mitos
e a catinga de tinta.
Convicto vivente contemporâneo,
compra no Comissariado
uma passagem para a imortalidade
e, computados,
os efeitos do verso,

reparte,
o meu salário
por trezentos anos!
Mas a força do poeta
não se reduz só
a que te lembrem
no futuro
entre soluços.
Não!
Hoje também
a rima do poeta
é carícia
slogan
açoite

baioneta.
Cidadão fiscal de rendas,
eu encerro.
Pago os 5
e risco
todos os zeros.
Tudo
o que quero
é um palmo de terra
ao lado
dos mais pobres
camponeses e obreiros.
Porém

se vocês pensam
que se trata apenas
de copiar
palavras a esmo,
eis aqui, camaradas,
minha pena,
podem
escrever
vocês mesmos!